A Arte do Barro e do Ser[tão].

Não é à toa que o Homem foi feito do barro. Pelo menos pela teoria Criacionista. Apesar das divergências ideológicas com a outra teoria, a Evolucionista, na qual afirma que os primeiros humanos surgiram de um ramo extinto de primatas, enquanto a primeira acredita que o primeiro homem foi moldado em uma mistura de argila com água, como um boneco, com barro. Vale lembrar também que o nome “Adão”  significa “barro vermelho”, e não há de ser esquecer que a palavra “humano” vem de “húmus”, matéria orgânica encontrada no solo, resultante da decomposição de animas, plantas, folhas etc. Assim como na Língua hebraica Adam – Adão, em nossa língua – significa vermelho ou feito do barro vermelho; em outras línguas antigas nomes como Adapa, Adamu, Adama também significam vermelho ou feito do barro vermelho, cor de argila, terracota, como eram os fenícios quando os gregos os conheceram, que o chamaram assim porque a palavra quer dizer púrpura, que tem vermelho.

Desde a antiguidade, o homem – atraído pela plasticidade do barro – começou moldando objetos utilitários como vasos, panelas, cachimbos e também itens decorativos. Foi da plasticidade do barro que o imaginário de diferentes povos foi modelado. E o homem, desde os tempos primitivos, está empenhado em polir pedra e moldar o barro na tentativa de traduzir, em linguagem visual, a sua própria essência. O barro é alicerce da expressão e do trabalho artesanal em civilizações dos mais diversos lugares do mundo.

No Nordeste são numerosos os grupos familiares que atualmente se dedicam ao trabalho com o barro, que é um elemento fundamental no alicerce da cultura popular nordestina. A arte de moldar cenas e pessoas em bonecos de barro é uma tradição que vem sendo passada de geração em geração, de avós para os pais, que por sua vez transmitem os segredos do ofício para filhos, que desde pequenos já estão com as mãos a mexer no barro. O trabalho começa como uma brincadeira modelando pequenos animais, carros, pessoas. A arte em barro – especialmente sob a figuração de bonecos – ganhou projeção nacional principalmente com as obras do pernambucano Mestre Vitalino. Ele foi inspiração para artistas pernambucanos contemporâneos dele, como Zé Caboclo e Zé Rodrigues e o legado do artista permanece na comunidade do Alto do Moura, em Caruaru (PE), onde seus descendentes e os de artistas de sua época seguem com o trabalho na arte figurativa em barro.

“O barro é matéria-prima para todas as culturas e civilizações. Curioso como o homem se sentiu atraído por esta argila e sua plasticidade. Do utilitário dos cachimbos, vasos, urnas mortuárias ao decorativo, onde a função estética se evidenciava em relação ao uso. Os bonecos de barro seriam um espécie de traço comum da Humanidade”, afirma o pesquisador em arte e cultura popular, Gilmar de Carvalho.

Mas a relação entre o homem e o barro se fortaleceu também por outro viés, mais subjetivo. No trabalho de tentar moldar a própria essência, a arte figurativa em barro se dissocia do artesanato utilitário e ganha novos espaços. O projeto “A Cerâmica Hermética”, por exemplo, surgiu com as experimentações e criações no barro de Rafael Brandão com Mestra Nilvinha, que abriu as portas da própria casa para o artista, que se hospedou no local e fez uso da oficina com forno a lenha, o mesmo que a artesã utiliza para cozer as tradicionais panelas e utensílios domésticos feitos com o barro e alimentar sua família. Dessa vivência surgiram as 12  esculturas que foram inspiradas na música Slave Mass, de Hermeto Pascoal, filho do barro do município de Lagoa da Canoa, em Alagoas, onde também nasceu e vive a Mestra Quitéria Bispo, mais conhecida como Nilvinha. Ela foi um dos seis artistas alagoanos premiados pelo Ministérios da Cultura em 2013, por intermédio do Prêmio Culturas Populares. Em um depoimento, o músico conta que fez a música pensando nos escravizados e nos perseguidos políticos da ditadura militar. Ele comentava que os presos eram torturados em troncos de Barriguas, árvore típica do sertão, que abrigam espinhos robustos.

O projeto – a quatro mãos – visa reformar, estruturar e capacitar a Cerâmica Santa Rita, local onde a Mestra Nilvinha dá vida à memória dos que já foram e renascem enquanto metáfora e enquanto luta. É ali, sentada ao chão como lhe é de costume, que a artesã maneja sua matéria-prima, onde pisoteia, amassa e molda o barro que dá vida a potes e purrões, com as peças secas e empilhadas esperando não só a queima. Aquela massa de barro seco também espera pela água que lhe moldará. Afinal, é do rio ou da lagoa a principal fonte de água, e é por um ou pela outra que se retira o barro para a produção da cerâmica.

Além de ressignificar a cerâmica utilitária tradicional, que desde seu passado  significa o sustento de toda uma comunidade que hoje resiste com muita dificuldade, o projeto luta para continuar e procurar fomentar a produção artística local por intermédio de oficinas para a população. Assim como a permanência dessa tradição e a continuidade da produção das esculturas do projeto “A Cerâmica Hermética”. O projeto também tem como objetivo a valorização do artesão por meio de políticas não só públicas, mas também privadas, que incentivem a cultura e a arte popular.

As esculturas a quatro mãos, algumas são verdadeiros totens, seduzem pelo uso de texturas e cores diferentes nas mesmas peças que, por sua vez, ficam entre o objeto utilitário e a escultura em si. Nelas, que abrigam espinhos de barro, há algo de pré-histórico, como se pertencessem a rituais pagãos ou se situassem entre o sagrado e o profano. É como se elas procurassem de alguma forma estabelecer um elo entre o céu e a terra, ou com o que está sob ela. Em muitas peças aparecem várias cabeças ou uma cabeça que tem três faces. Não há como não lembrar de Hécate, que habitava o mundo subterrâneo e é representada ora com três corpos, ora com um corpo e três cabeças. Suas três faces simbolizam a virgem, a mãe e a velha senhora. Tendo o poder de olhar para três direções ao mesmo tempo, ela podia ver o destino, o passado que interferia no presente e que poderia prejudicar o futuro. De certa maneira, Brandão e a Mestra Nilvinha metem literalmente as mãos no passado, no presente e no futuro, moldando cada um deles em um fazer que reverbera além das fronteiras geográficas e avançam para uma universalidade na qual os saberes tradicionais se traduzem para o mundo na forma de uma arte que extrapola o conceito de ser “popular”.

Resgatando e recriando essa tradição do uso do barro, que já era utilizado pelos índios no Brasil, a dupla de artistas mergulha em um sertão que não mais reproduz seu cotidiano ou mesmo figuras que foram ganhando importância histórica e folclórica como cangaceiros, retirantes, soldados, políticos e tantas outras figuras que registraram a relação entre o homem e o barro. Em “A Cerâmica Hermética”, Brandão e Mestra Nilvinha propõem o resgate dessa tradição cuja matéria-prima pode ter várias formas, mas um único sentido: produzir, criar arte. Foi assim que várias gerações de artistas se firmaram no sertão. E que ainda se firmam. Os instrumentos para a confecção de sua arte continuam sendo os mesmos de antes e de sempre: a argila, o barro, uma faca, palitos, penas de animais para evidenciar os detalhes, as mãos e o coração.

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Rafael Brandão é artesão, artista visual e arquiteto. Desde a adolescência integra grupos de atividades artísticas e culturais tendo, inclusive, pleiteado como associado – junto à gestão municipal – a construção do Mercado de Artesanato de Arapiraca [AL]. Há anos trabalha junto à comunidades periféricas promovendo inclusão e formação da população local. Também é integrante do Projeto Ecobrisa, que visa transformar uma área de proteção Permanente em um Parque Municipal Ecológico e Cultural. Durante sua pesquisa de trabalho de conclusão de curso, pesquisou sobre a arquitetura dos terreiros estabelecendo, desde então, uma ligação com o candomblé e rituais afro-brasileiros, tendo participado diretamente na formação de um grupo de cultura afro no terreiro no qual fez sua pesquisa, o Afoxé Xangô Laiyó.

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