Eliane Potiguara, a voz do choro de sua avó

Salve, Glorioses. O texto de hoje é um convite à uma viagem pelo universo de Eliane Potiguara, mulher indígena, professora, poetisa e escritora. A menina nascida em 1950, num assentamento indígena no centro do Rio de Janeiro, ouvia da avó, Maria de Lourdes, as histórias de seu povo. Eram potiguaras do norte da Paraíba, de onde ela havia fugido, aos 12 anos, grávida. Seu pai, Chico Solón,  tinha sido assassinado por fazendeiros ingleses e ela precisava sobreviver, contava a avó, aos prantos.

Conhecedora das violências que sofrem as mulheres e os indígenas, a avó privou Eliane de qualquer contato com a sociedade, até os 9 ou 10 anos, quando finalmente foi para a escola. Eliane diz que as lágrimas de sua avó pavimentaram o eu destino: estudou Letras, formou-se professora e retornou à Paraíba, numa viagem de resgate à memória de sua família e de seu povo.

Foi assim que, em 1988, Eliane foi eleita uma das “Dez Mulheres do Ano”, pelo Conselho das Mulheres do Brasil. Ela é a criadora da primeira organização de mulheres indígenas no Brasil – GRUMIN (Grupo Mulher-Educação Indígena). Trabalhou pela educação e integração da mulher indígena e também na elaboração da Constituição Brasileira, em 1988!

No ano seguinte, Eliana inaugura a literatura indígena com o livro “A Terra é a Mãe do Índio”. A trajetória de Eliane Potiguara é extensa, recheada de honrarias mundo afora, digna dos melhores romances. Seu livro “Metade Cara, Metade Máscara”, publicado em 2004, reúne textos, crônicas e poesias que contam todas essas memórias de Eliane e das mulheres de sua vida.

Encerro a Quarta Gloriosa de hoje com um de seus poemas, tão simbólico, de nome “Brasil”:

Que faço com a minha cara de índia?
e meus cabelos
e minhas rugas
e minha história
e meus segredos?

Que faço com a minha cara de índia?
e meus espíritos
e minha força
e meu tupã
e meus círculos?

Que faço com a minha cara de índia?
e meu toré
e meu sagrado
e meus “cabôcos”
e minha terra?

Que faço com a minha cara de índia ?
e meu sangue
e minha consciência
e minha luta
e nossos filhos?

Brasil, o que faço com a minha cara de índia?

Não sou violência
ou estupro

Eu sou história
eu sou cunhã
barriga brasileira
ventre sagrado
povo brasileiro

Ventre que gerou
o povo brasileiro
hoje está só

A barriga da mãe fecunda
e os cânticos que outrora cantavam
hoje são gritos de guerra
contra o massacre imundo.

Um beijo e até a próxima Quarta Gloriosa!

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