Em nome de quê, São Francisco?

O Rio São Francisco é um dos cursos d’água mais importantes do Brasil e desde o crime ambiental de Brumadinho vem sofrendo com a possibilidade de contaminação, cada vez mais real depois da morte do Rio Paraopeba. O movimento Uma Gota no Oceano se uniu ao Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), além de outras instituições de defesa da vida natural, para alertar sobre essa realidade através da campanha “Em Nome de Quê, São Francisco?”.

A barragem de rejeitos rompeu em Brumadinho, na região de Córrego do Feijão em Minas Gerais, no último dia 25 de janeiro. Desde então já registrou mais de 200 mortos e 50 desaparecidos, o segundo maior desastre industrial do século e o maior desastre de trabalho do Brasil.

A Mina de Córrego do Feijão tinha 7 barragens, tendo sido a primeira construída em 1976. O Complexo de Paraopeba, que abarca a mina atingida, produziu mais de 27 milhões de toneladas de minério de ferro somente no ano de 2018. Quando cedeu, a barragem 1 formou ondas de lama tóxica entre carros, casas, campos e afluentes, sendo o Rio Paraopeba o grande  impactado. Foram cerca de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos liberados.

Rio Paraopeba

A bacia do Rio Paraopeba é uma das formadoras do Rio São Francisco, com mais de 500 quilômetros e atravessando 35 municípios. Segundo estudo da ONG SOS Mata Atlântica publicado no final de fevereiro, que percorreu 2 mil quilômetros de estradas e analisou a qualidade da água por mais de 300 quilômetros do Velho Chico, não há mais vida neste trecho de extensão.

O relatório concluiu que, dos 22 pontos analisados, 10 apresentam estado ruim de água e 12 estão em estado péssimo. Todos os pontos apresentam impossibilidade do uso ou chance de vida na água. Além disso, 112 hectares de Mata Atlântica foram devastados, afetando toda a fauna e flora local.  

Segundo a norma legal vigente (Resolução Conama 357), as concentrações máximas de cobre na água para rios como o Paraopeba (classe 2) é de 0,009 mg/L. Em alguns pontos o resultado chegou a mais de 4 mg/L. O consumo de quantidades relativamente pequenas de cobre livre pode provocar náuseas e vômitos. Já o manganês, cujo o limite é de 0,1 mg/L, chegou a até 3 mg/L em alguns locais. Existe o risco de seres humanos apresentarem sintomas como rigidez muscular, tremores das mãos e fraqueza a partir da ingestão de manganês, forma da contaminação deste metal. A concentração elevada de ferro e manganês na água podem ser os responsáveis pela coloração avermelhada do rio. Em diversos pontos, o ferro esteve acima de 6 mg/L.

Diante tamanho impacto e cenário de incerteza, especialistas alertam para o iminente risco das águas condenadas do Paraopeba chegarem ao São Francisco. A lama já chegou a Três Marias e mais recentemente na Usina Hidrelétrica de Retiro Baixo, como aponta a Agência Nacional das Águas.

Em nome de quê?

A campanha “Em nome de quê?” é um movimento colaborativo em prol da vida das águas. “A água é o que garante o nosso bem viver, alimenta as nossas relações com a natureza, as relações entre nós mesmos e as relações entre as sociedades. E é por isso que nós não podemos desconhecer que já ocorre uma guerra pela água no mundo, com consequências terríveis para nosso país, não só para os povos indígenas”, assina o manifesto da campanha.

Somando esforços em defesa do Rio São Francisco, a iniciativa encabeça uma petição pública que pede, dentre outras iniciativas imediatas, que o Estado brasileiro:

“Reveja o modelo de licenciamento, monitoramento e fiscalização de barragens e as políticas de concessão de licenças”, “amplie o quadro de funcionários públicos e os recursos destinados ao licenciamento, ao monitoramento e à fiscalização de barragens no Brasil”, “não se ausente de garantir os direitos das populações atingidas pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho” e “exija que as empresas responsáveis pelos danos causados assumam as consequências e a responsabilidade integral para a remediação e recuperação do meio ambiente e os direitos das populações atingidas”.

Confira o manifesto da campanha:

A lama de Brumadinho ainda segue pelos afluentes brasileiros e apresentam uma ameaça silenciosa, que instituições de monitoramento têm se esforçado para acompanhar. É um risco à fauna, à pesca, à agricultura familiar e à manutenção da riqueza da nossa biodiversidade, e segue sem qualquer punição ou solução efetiva para que, após o fantasma da queda da barragem de Mariana, há três anos também em Minas Gerais, a morte de rios brasileiros não se torne uma realidade frequente.

Assine a campanha “Em nome de quê, São Francisco?” clicando aqui.

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