Heroínas e Pioneiras

As mulheres e seu protagonismo na história brasileira

Nunca é demais [re]conhecer quem são as mulheres negras, heroínas e pioneiras que promoveram mudanças estruturais e fundamentais no país, muito embora durante séculos tenham sido pouco lembradas e muitas esquecidas pela história “oficial”. Afinal de contas, séculos antes da vereadora Marielle Franco ter sido assassinada por milicianos em pleno exercício do mandato, em uma clara evocação Aos anos de chumbo no Brasil, outras mulheres destacaram-se em diversas áreas do conhecimento e da política e inspiraram diversos movimentos sociais e culturais. Esse texto é uma declaração de amor, nesse mês que se inicia e é dedicado às mulheres, para que nunca esqueçamos que elas existiram e resistiram.

Infelizmente há pouca documentação sobre essas mulheres negras ou não, que foram protagonistas em momentos importantes da nossa história ao longo dos séculos. Muitas delas têm suas trajetórias conhecidas apenas por intermédio de registros orais, e a maioria delas tiveram seus papéis atrelados às lutas protagonizadas por homens, a maioria brancos, claro. Mas nos últimos anos e cada vez mais esse cenário está se transformando e essas mulheres silenciadas historicamente, apagadas propositadamente, ganharam mais força e visibilidade.

Ainda bem que temos a internet e as redes sociais que contribuem enormemente para a crescente visibilidade desses nomes, fazendo com que possamos revisitar o passado com um olhar mais plural e diverso. Esse acesso, esse novo olhar permite que conheçamos essas personagens que, por uma série de escolhas e imposições, inclusive políticas, não receberam a devida importância. A invisibilidade da mulher negra, decorrente do machismo e do racismo que estruturam a sociedade brasileira há séculos, tem cada dia se tornado mais visível. Atualmente podemos conhecer nomes como o de Maria Firmina dos Reis, considerada autora do primeiro romance abolicionista da América Latina, “Úrsula” (1859). Ou Dandara e Tereza de Benguela, por exemplo, mulheres de origem africana que foram escravizadas, e que fizeram parte de quilombos no período colonial, mas que se engajaram na luta pela liberdade.

Para homenagear e relembrar algumas das mais diversas personagens que marcaram a história e os avanços das mulheres no Brasil, elenco aqui algumas delas. Inicio com Dandara, uma mulher guerreira que lutou contra o trabalho escravo antes da Princesa Isabel. Era capoeirista e aprendeu a lutar com espadas que ela própria fabricava. Não é à toa que ela era considerada a rainha do Quilombo dos Palmares, companheira de Zumbi. A história conta que após ser presa ela não quis retornar à condição de escrava e se suicidou se jogando de uma pedreira. A escrava piauiense Esperança Garcia escreveu em 1770 uma das mais antigas cartas de denúncia de maus-tratos contra negros, que foi entregue ao governador da então província de São José do Piauí. Quase 250 anos depois ela recebeu o título de primeira mulher advogada do Piauí pela OAB do Estado.

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Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, nasceu em 1854, em Santo Amaro, Bahia, e é considerada uma das figuras mais influentes da origem do samba. No início do século XX, ela, que também era mãe de santo, promovia rituais religiosos e concorridas rodas de partido-alto. Na época o samba sofria grande repressão, mas na casa dela era diferente. Ela era conhecida entre autoridades e protegida entre os policiais, além de ser uma anfitriã maravilhosa que recebia convidados como Pixinguinha, Donga e Heitor dos Prazeres. Para se ter uma ideia da sua importância, o primeiro samba registrado no Brasil, chamado “Pelo Telefone”, composto por Donga, foi gravado na casa de Tia Ciata. Carolina Maria de Jesus, nascida em 1914, em Sacramento, Minas Gerais, foi uma das grandes referências da literatura brasileira. Ela, que trabalhava como catadora de papel, registrava em cadernos que encontrava nas ruas o cotidiano da vida na favela. Seu diário originou o livro “Quarto de Despejo”, lançado em 1960, que é considerado o primeiro documento a apresentar a realidade de uma mulher negra e pobre no Brasil, foi traduzido e publicado em mais de 40 países. Leitura fundamental na literatura brasileira, considerado um dos marcos da escrita feminina no Brasil.

Também não podemos esquecer da catarinense Antonieta de Barros, filha de uma ex-escrava, que foi pioneira na luta pela igualdade racial e a primeira líder negra a assumir um mandato popular no Brasil. Professora, escritora, jornalista, ela foi a primeira deputada estadual negra do país em 1935 e reeleita em 1947. E como não citar a psiquiatra alagoana Nise da Silveira, minha conterrânea, que revolucionou o tratamento de doenças psiquiátricas no país confrontando os métodos vigentes na sua época ao introduzir a arte, principalmente a pintura, para a reabilitação de seus pacientes. Ou a estilista mineira Zuzu Angel, que depois que seu filho Stuart Angel ter sido sequestrado e morto em 1971 durante a ditadura militar, se tornou uma importante opositora do regime vigente divulgando na imprensa nacional e internacional os excessos da ditadura. Zuzu morreu em um acidente de carro, em 1976. A carioca Ruth de Souza, falecida no ano passado, entrou para a história em sua estreia como a primeira atriz negra a se apresentar no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1945. Quase duas décadas depois, em 1969, ela foi a primeira atriz negra a ser protagonista em novelas no Brasil ao fazer parte do elenco da TV Globo na novela “A Cabana do Pai Tomás”. 

Dessas heroínas e pioneiras ainda vivas duas merecem destaque. Sueli Carneiro, intelectual que criou o único programa brasileiro de orientação na área de saúde para mulheres negras. Filósofa, doutora em educação pela Universidade de São Paulo (USP), escritora, ativista do movimento feminista e da luta antirracista, ela ajudou a fundar o Geledés – Instituto da Mulher Negra, uma das principais referências sobre as questões raciais no país. E também criou o Projeto Rappers, onde os jovens são agentes de denúncia e multiplicadores de consciência de cidadania dos demais jovens. E para finalizar esse elenco reluzente de mulheres, temos ainda a Erica Malunguinho da Silva, que se tornou a primeira mulher trans eleita ao cargo de deputada estadual em São Paulo.

Mais do que nunca, a história, a presença, a voz feminina tem reverberado cada vez mais forte no nosso cotidiano e proporcionando mudanças estruturais e fundamentais na nossa sociedade. Se as mulheres brancas ainda são pouco faladas, as negras menos ainda. O reconhecimento do protagonismo das mulheres negras na luta por direitos e na construção de saberes e tradições no Brasil está sendo corrigido agora, com o resgate dessas personagens históricas. Ainda que existam barreiras a serem eliminadas, a representatividade e a trajetória dessas mulheres têm colaborado para o avanço de direitos e debates, além da redução da desigualdade de gênero. A ousadia e o pioneirismo delas as colocam em posições de relevância no que diz respeito à questão de representatividade. A [in]visibilidade histórica dessas mulheres no Brasil, de certa maneira, tem nos ajudado a recuperar e construir novas narrativas na nossa história. E isso é essencial para cada vez mais nos conhecermos mais e melhor.

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