A hora de [des]atar. Entre nós, os nós.

Não há como esquecer a cena recente do Papa Francisco dando a bênção Urbi et Orbi ao vivo da Praça São Pedro, no Vaticano. Ele rezou sozinho pelo mundo em meio à praça deserta. Uma imagem impactante, histórica, nunca vista antes pela humanidade. E altamente simbólica. Estar sozinho, mas estar conectado pela fé, pela energia em bilhões de pessoas. É como dizem, todos juntos e separados. Mas, entre nós e os nós desse que é um dos períodos mais turbulentos da história da humanidade, agora, mais que tudo, as redes sociais como o Facebook e o Instagram são as ferramentas que temos para falar e saber dos outros, dos amigos, da família, da vida que [es]corre lá fora. Realmente são novos tempos esses que se avizinham. Se antes da quarentena eram as redes sociais que, de certa maneira, nos isolava dos outros – que acachapou no decorrer dos anos aquela vontade de ligar, falar ao telefone, marcar um tête-à-tête – agora são elas que nos aproxima. Nossa dependência com a tecnologia se mostrou a única e possível forma de se comunicar com o outro. Tão perto e tão longe.

Na contramão dessa união, mesmo que virtual, há aqueles que pregam que postar ou escrever sobre felicidade, a sua pequena e a nossa efêmera alegria de cada dia é um crime. Como mostrar meu deleite quando o mundo se encolhe abismado e ensimesmado? Tenho pensado muito em Spinoza ultimamente. Non ridere, non lugere, neque detestari, sed intelligere. Não rir, não lamentar, nem amaldiçoar, mas compreender.

Somos atraídos todos os dias, quiçá várias vezes por hora para o nosso celular, smartphone, para aquele pequeno espelho negro, o pequeno lago pessoal de cada um que se debruça para ver seu reflexo disperso em comentários, fotos, likes e compartilhamentos. É uma overdose de coisas que informam e assustam. Narciso também tem medo de seu reflexo. O espelho do narciso está quebrando. Lembro do Freud quando disse que cada um de nós repete a tragédia de Narciso, que estamos perdidamente absortos em nós mesmos. E nos nossos nós também, porque em tempos como esses o fio de Ariadne se enrola, enrosca, se bifurca no labirinto do Minotauro e nos jardins do Borges. Há muitos nós a serem [des]atados.

Mas não é só hora de estarmos absortos em nós mesmos, também é hora para sairmos de nós. Chega de dizer “estou fora de mim”, se for para estar é estar “fora de nós”. Em todos os sentidos que sua leitura possa traduzir. É o coletivo, a coletividade, a parceria, o todo que vai agir e por em prática esse novo tempo que chega. Quando tudo voltar à “normalidade”, os abraços e beijos terão outros sentidos. O amanhecer também, assim como o anoitecer e o céu coalhado de estrelas. Nada será como antes. A forma que lidamos com o nosso tempo mudou e vai mudar mais ainda. A maneira como encontramos o outro, tanto física como subjetivamente vai mudar.

Em tempos de pandemia tudo é superlativo. São possíveis milhões de mortos, bilhões em confinamento e trilhõe$ sendo injetados no mundo todo para que ele não pare.  Se tá osso em sampa e em diversas cidades do mundo, imagine na África, com um sistema púbico de saúde mais que combalido, ou na Nigéria, país mais populoso do continente, que decretou o confinamento total em Lagos, megalópole de 20 milhões de habitantes. E na Índia? Mais de um bilhão de pessoas em isolamento social. Não, não está fácil mesmo. Nunca nossa geração vivenciou tal momento histórico com essa magnitude.

Carmas e #fiqueemcasa

Aí fico pensando na subjetividade, visto que a realidade tem estado cruel, e lembro do Carma. Sim, do carma de cada um de nós habitantes do planeta. Após o começo da pandemia na China, quais foram os países mais afetados? Itália, Espanha e Estados Unidos. O primeiro o país mais antigo do mundo, berço do império romano que conquistou, mas também dizimou e pilhou diversos povos na antiguidade. O segundo, responsável igualmente por conquistas importantes da História, mas que também matou, roubou e acabou com civilizações na América Latina . E o terceiro país, os EUA, ah, esse só para lembrar colocou o ponto final na 2a Guerra Mundial jogando duas bombas atômicas em duas cidades do Japão. Sei lá, conjecturas, pensamentos à deriva nessa longa jornada quarentena adentro.

Portanto, mais que tudo, #fiqueemcasa. Um estudo publicado dia 26 de março por dois membros do Banco Central dos EUA e outro do prestigiado Massachusetts Institute of Techonology [MIT] comparou resultados econômicos de cidades norte-americanas que aplicaram medidas restritivas de contato social cedo na eclosão da pandemia para combater a gripe espanhola de 1918 e de outras que adotaram estratégias mais relaxadas ou demoraram. “Nós descobrirmos que cidades que intervieram cedo e mais agressivamente não tiveram desempenho pior [econômico] e, de qualquer forma, cresceram mais rápido depois que a pandemia passou”.

Para conter essa praga universal, até o Summit, o mega blaster computador que consegue realizar 200 quatrilhões de cálculos por segundo, ou mais ou menos 1 milhão de vezes mais rápido que o mais potente dos notebooks, está trabalhando apenas para encontrar a cura do Corona vírus. O Summit foi revelado ao mundo pela IBM em 2018. Do tamanho de duas quadras de tênis, a máquina até então era usada para desempenhar dezenas de funções como a criação de novos materiais, desenvolvimento de tecnologias para segurança, pesquisas contra o câncer etc. Mas agora, os pesquisadores do Laboratório Nacional de Oak Ridge, nos EUA, onde o Summit está instalado, só pensam no Corona e na sua cura.

Efeitos colaterais e doações$

A Pandemia atingiu coisas inimagináveis no século 21. A previsão do tempo, por exemplo, também foi atingida. A queda nos voos no mundo todo teve outro efeito que ultrapassa os resultados da indústria da aviação, a dificuldade dos cientistas de fazer previsões meteorológicas. É que as aeronaves transmitem continuamente dados para os centros de previsão do tempo. Geralmente, os aviões podem transmitir mais de 200 mil observações meteorológicas por dia. Os dados que eles coletam sobre pressão do ar, temperatura, altura das nuvens e outros são uma parte crucial da previsão do tempo. Sem os dados para alimentá-lo, os meteorologistas ficam em uma situação com muitos pontos cegos que não podem prever nada. E já não é mistério para ninguém que a cultura e a economia criativa são tão importantes para a sociedade. Elas, destroçadas nessa crise, um importante motor da economia brasileira, geram 1 milhão de empregos movimentando nada mais, nada menos do que mais de 200 mil empresas e instituições, além de gerar R$ 10,5 bilhões em impostos e representar 2,64% do PIB. Só em São Paulo elas geram mais de 300 mil empregos.

Mas os amparo$ e doações$ têm e deverão ajudar muito a sociedade.  O Senado aprovou por unanimidade recentemente, no dia 31 de março, o repasse de até R$ 2 bilhões pela União à Santas Casas e hospitais filantrópicos que atendem pelo SUS (Sistema Único de Saúde) para que possam suportar o aumento de demanda causado pela pandemia. Na inciativa privada os bancos bilionário$ resolvem colocar as mãos nos bolsos. Lembro do Delfim Netto quando dizia que a parte mais sensível do corpo humano é o bolso. Pois é, agora é a hora deles, que sempre tiveram e têm lucro$ estratosféricos doarem seu quinhão. Alguns já fizeram doações que somam mais de R$ 220 milhões pra ampliar a infraestrutura hospitalar, compra de equipamentos e EPI, cestas de alimentação e kit de higiene para distribuição dos vulneráveis.

O Vaticano, que é o menor país do mundo com apenas 0,44 quilômetros quadrados abriga não só a maior igreja do mundo, como tem um banco que pelas estatísticas deve ter mais de 17 bilhões de Euros em caixa. Fora as propriedades do Vaticano, cerca de 4.400 imóveis que valem, ao todo, 2,7 bilhões de euros. O fato do papa ter doado apenas 100 mil euros à Caritas da Itália como contribuição para o tratamento das pessoas que sofrem com a pandemia e para os que ajudam a cuidar dos doentes é pouco. Muito pouco. A Caritas é uma organização humanitária da Igreja Católica que atua em mais de 200 países, com atividades voltadas especialmente para os mais carentes. A doação, feita por meio do Dicastério, nome dado aos departamentos do governo da Igreja Católica que compõem a Cúria Romana, para o Serviço do Desenvolvimento Integral, e será destinada principalmente aos serviços essenciais em benefício dos pobres e vulneráveis da Itália. Francisco também realizou uma doação de 30 respiradores artificiais à Esmolaria Apostólica do Vaticano para distribuir aos hospitais. Mas pode fazer muito, mas muito mais. É hic et nunc, aqui e agora, Francisco, que o senhor deve fazer jus às palavras da Bíblia, em Gálatas 6:2, “ajudai-vos uns aos outros a carregar os vossos fardos, e deste modo cumprireis a lei de Cristo”.

Despertar

Não sabemos o que vai ocorrer até o final de abril, quantos serão os milhares de casos pelo mundo, quantos os curados, se teremos como suportar o colapso possível dos sistemas públicos de saúde no mundo todo. Mas de duas coisa teremos que ter certeza, a derrocada do neoliberalismo e as nocas configurações do capitalismo.  A primeira, lembrando o filósofo camaronês Achille Mbembe, é que “o sistema capitalista é baseado na distribuição desigual de oportunidade de viver e de morrer. Essa lógica do sacrifício sempre esteve no coração do neoliberalismo, que deveríamos chamar de necroliberalismo. Esse sistema sempre operou com a ideia de que alguém vale mais do que os outros. Quem não tem valor pode ser descartado”.  Isso vai mudar, está mudando. Ah! A segunda coisa é que não, o Corona vírus não é e nem nunca foi uma gripezinha. Ficar quieto, isolado na sua casa tem sido a única coisa que tem ajudado a conter a pandemia. Juntos, nós, mesmo temporariamente separados, vamos desatar esse nós.

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