Índio não quer só apito

Atualmente constata-se um crescimento considerável no número de debates acerca de questões indígenas no Brasil que colocam em foco o descaso histórico e a persistência de estereótipos culturalmente arraigados. É sabido que as transformações ocorridas nas políticas públicas durante as últimas décadas em várias áreas como a cultura, educação e meio ambiente contribuíram para a vontade genuína e irreversível de uma maior representatividade por parte de diversas minorias, reabilitando conexões e contaminações, e enfrentando com mais assertividade a problemática incontornável da historiografia da arte frente à produção cultural da população indígena.

Até pouco tempo atrás no Brasil as artes indígenas eram – na maioria das vezes – mais objeto de estudo por parte de antropólogos do que dos historiadores, críticos e curadores da arte. No campo da arte, cultura e comportamento, a pergunta que não quer calar e nem vai ser silenciada tão cedo é como pensar as contribuições indígenas para a redefinição de conceitos da história da arte no Brasil e do mundo? É notório no campo das artes visuais o interesse crescente de artistas, curadores e instituições em relação à comunidades indígenas de variadas etnias assumindo papéis propositivos frente às demandas de representatividade.

Recentemente, o Museu de Arte de São Paulo (Masp) e a Pinacoteca receberam um prêmio equivalente a 1 milhão de reais da famosa casa inglesa de leilões Sotheby’s. É o terceiro ano que a entidade realiza essa premiação que visa valorizar áreas consideradas negligenciadas no mundo da arte. Criador do prêmio, vice-presidente da Sotheby’s e diretor artístico do Instituto Inhotim [MG], Allan Schwartzman enfatizou a importância das questões indígenas e valorizou o trabalho das instituições vencedoras.

Os museus brasileiros venceram a disputa devido a duas exposições que ainda irão acontecer. A Pinacoteca foi contemplada por conta de um projeto previsto para 2020 que pretende abordar a ausência da cultura indígena dentro de museus. O projeto é uma iniciativa da instituição em conjunto com a Casa do Povo e a aldeia indígena Kalipety, de origem Guarani Mbya, localizada na Zona Sul de São Paulo. Outro destaque da programação para o próximo ano será a reformulação da exposição de longa duração com obras do seu acervo em cartaz desde 2011. Jochen Volz, diretor geral da Pinacoteca, quer trazer à público novas leituras do acervo e da história da arte brasileira preenchendo algumas lacunas como a sub-representação de artistas mulheres, afro-brasileiros e indígenas. A mostra “Arte Contemporânea Indígena” deve ocorrer entre 4 de julho e 28 de setembro de 2020.

O Masp recebeu o prêmio pela exposição “Histórias indígenas” prevista para 2021, que apresentará a arte e a cultura visual de diferentes histórias indígenas em todo o mundo, reunindo obras de diferentes suportes, origens e períodos, do século 16 ao 21. A mostra terá seções dedicadas às histórias indígenas na Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Peru, México e Brasil, cada uma delas organizada por curadores indígenas dessas regiões. A exposição faz parte do eixo curatorial de mesmo nome que pautará no ano que vem um programa completo de exposições individuais e coletivas, palestras, oficinas, publicações e cursos no museu. Vale lembrar que ao longo de sua história o Masp realizou diversas mostras com objetos e registros de comunidades indígenas localizadas no território brasileiro como a “Exposição de Arte Indígena” (1949), “Alguns Índios” (1983), “Arte Karajá” (1984), “Índios Yanomami” (1985) e “Arte Indígena Kaxinawa” (1987). O museu também dará continuidade aos seus seminários que abordam seu eixo curatorial com a presença de teóricos, artistas, curadores e ativistas de diferentes locais, cenários e perspectivas, com o objetivo de apresentar e discutir a riqueza e a complexidade de materiais indígenas e culturas imateriais, suas filosofias e cosmologias e os desafios e as possibilidades de trabalhar com esses campos, sobretudo no contexto de um museu.

Em todos os continentes os povos indígenas continuam sofrendo intensa discriminação com impactos agravados quando se encontram em situação de minorias, étnicas e linguísticas. O fato é que os índios no século 21 não estão mais na zona de isolamento na qual foram confinados por séculos; cada vez mais  estão integrados aos sistemas sociais, econômicos e políticos, em âmbito regional ou nacional. Uma integração ainda mediada por meio de relações desiguais, muitas vezes no limite da exclusão. Enquanto minorias, os povos indígenas reivindicam atualmente muito mais do que garantias territoriais.

Embora grande parte da população brasileira considere que os índios ainda estão “em vias de desaparecimento”, existe um numeroso contingente indígena que vive em centros urbanos. E mais do que delegar ao Estado a responsabilidade do destino dessa população com a intenção de sua integração ou preservação, é fundamental implementar de uma vez por todas medidas de “salvaguarda”. De acordo com as definições oficiais difundidas pela Unesco, entende-se por salvaguarda “as ações que procuram assegurar a viabilidade e durabilidade do patrimônio cultural, incluindo sua identificação, documentação, investigação, preservação, além de sua proteção, promoção, valorização, transmissão – efetuada através do ensino formal e não formal – e a revitalização desse patrimônio em seus diferentes aspectos”.

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As políticas de identidade que abrigam mulheres e negros estão nas pautas das discussões no mundo todo, tanto quanto as questões relacionadas ao meio ambiente, as políticas de fronteiras e de migração. Estima-se que existam hoje no mundo cerca de cinco mil povos indígenas que somam mais de 370 milhões de pessoas. Para quem não sabe, no Brasil não se fala apenas o português: há ainda 274 línguas indígenas (das 1,2 mil que existiam no início da colonização portuguesa). Deste total, 190 correm o risco iminente de desaparecer segundo o “Atlas das Línguas em Perigo” da Unesco. O mapa reúne línguas em perigo no mundo todo, e o Brasil é o segundo país com mais idiomas que podem entrar em extinção, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Das 190 línguas citadas pela Unesco, 12 já são consideradas extintas, ou seja, não têm mais nenhum falante vivo.

Ao contrário da Marchinha de Carnaval de 1961, os índios não querem só apitos, nem miçangas e espelhos, ele querem muito mais: um lugar de escuta e de fala. Cada vez mais conectados com o nosso aqui e agora, como – por exemplo – na obra “A voz da Terra Pankararu”, criada no ano passado pelos artistas cariocas André Anastácio e Alberto Harres. Eles usaram no trabalho tecnologias interativas como plataforma para mediar novas formas de relação e afeto dentro das dinâmicas sociais. Os artistas produziram um dispositivo tecno-indígena, um artefato que une a cerâmica tradicional ancestral Pankararu com tecnologias digitais de comunicação e armazenamento de informação para possibilitar a escuta, a amplificação e a produção da memória na cultura indígena. Muito além de um simples apito.

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