Kunumi MC – Rap e ancestralidade de mãos dadas

Salve Glorioses. Hoje eu vou falar sobre Werá Jeguaka Mirim, o jovem escritor que também é  rapper, conhecido como Kunumi MC, que gravou com o cantor Criolo. Aos 13 anos, participando da abertura dos jogos entre Brasil e Croácia, na Copa do Mundo de 2014, exibiu uma faixa que havia levado escondido sob seu calção, com os dizeres “Demarcação Já”. Sua imagem rodou o mundo, transformando-o em garoto-propaganda da causa. Kunumi percebeu que poderia usar sua voz para lutar pela preservação da cultura de seu povo pois haviam pessoas interessadas em ouvir.

A literatura entrou em sua vida através de seu pai, Olívio Jekupé, autor de 500 Anos de Angústia e mais oito livros e que sempre incentivou os filhos, levando-os em suas palestras. O resultado é que aos 16 anos, o jovem já tinha escrito 2 livros. O primeiro, aos 9, escreveu com o irmão Tupã MiriM, Contos do Curumim Guarani. Aos 12, escreveu sozinho Kunumi Guarani. Ambos falam sobre a história do povo Guarani e contam como é a vida dos jovens na aldeia Krukutu em Parelheiros, distrito de São Paulo.

O rap (abreviação de rythm and poetry, que em português significa ritmo e poesia) veio quando conheceu o Brô MC’s, primeiro grupo de rap indígena do Brasil. Foi com o rap que Kunumi percebeu que a literatura, mais do que preservar o passado, também podia ser uma ferramenta para garantir o futuro, levando a sua mensagem para além da aldeia.

“O rap para mim é uma tecnologia, uma ferramenta que eu uso para me manifestar. Mas, diferente de mim, muitos jovens indígenas não são incentivados a reconhecer seus talentos.”

Com letras de protesto misturando o português e o guarani, o jovem hoje tem dois CD’S: My Blood is Red (Meu Sangue é Vermelho), de 2017, e Todo Dia é Dia do Índio, de 2019.  O clipe mais recente, lançado em maio, é o “Xondaro Ka’aguy Reguá”, (o guerreiro da floresta, em português).

O documentário “The Native Thunder”, dirigido por Mauro D’Addio em 2016, conta um pouco dessa história. E, com ela, podemos compreender a importância da autonomia dos povos originários sobre a sua própria narrativa, bem como da literatura para manter viva essa memória.

Se parece estranho que um indígena se expresse através do rap, um ritmo tão urbano e a princípio tão distante das aldeias, convém ouvir o que diz seu pai: “é importante utilizar o domínio já inevitável da língua ‘de branco’ como forma de subversão contra a colonização linguística e anulação de nossa cultura… como vem acontecendo em mais de 500 anos de história indígena”.

Kunumi MC tem uma caminhada gigante pela frente, com muito a dizer. Cabe a nós, ouví-lo.

Quer conhecer suas músicas? Ouça aqui!

Um beijo e até a próxima Quarta Gloriosa.

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