A menina que virou lua

Menina-Mulher, faça de seu corpo o seu mais precioso abrigo“. É com esse chamado que Morena Cardoso dá início ao livro A Menina Que Virou Lua, publicado em 2019 pela editora Letramento e que abre as portas para um mundo de memória, poesia e ancestralidade em torno da menarca, o período da primeira menstruação, e o tornar-se mulher.

O que para muitos, na era das tecnologias, é apenas um período de desconforto vazio, para Morena é um chamado da natureza para reconexão com o próprio ser. Não só para ela, mas para uma legião de mulheres que despertam em busca do sagrado feminino e um processo profundo de autoconhecimento e reconhecimento do próprio corpo. 

A inspiração veio em uma noite na floresta, sob o céu de Oregon, nos Estados Unidos. Morena é dentre muitas personas uma peregrina, desde que saiu de casa aos 17 e com 21 iniciou uma jornada mundo afora e rumo aos saberes ancestrais e povos originários.

Em uma dessas noites veio o chamado para a escrita, e “o livro nasceu aí”, como ela conta. 

De alguma forma esse tema já estava me acompanhando a algum tempo, como uma reflexão sobre como os povos originários olham com cuidado e atenção para a importância dos Ritos de Passagem, e sobre como hoje, na contemporaneidade, nos esquecemos de ritualizar e dar significado para determinados acontecimentos importantes de formação das nossas subjetividades. Certamente, o livro não foi escrito com a pretensão de se tornar um livro… eu mesma me surpreendi quando vi o resultado!

Na mesma noite, os rabiscos começaram a dar forma ao que viria a ser o livro. Processo esse que culminou no encontro com Julia Vargas, ilustradora que dá ainda mais cor às palavras de Morena. Foi em uma viagem pela Amazônia, meses depois daquela noite no Oregon, que elas se encontraram em uma mesa de café da manhã e ali trocaram as primeiras impressões sobre este trabalho. 

Tínhamos 8 horas de barco até chegar à aldeia indígena yawanawá… eu aproveitei o tempo no barco, o vento na cara e o encanto daquelas árvores, para poder dar o texto como concluído. Julia estava nessa viagem.”

Julia, assim como Morena, é uma nômade, e suas viagens pelo mundo começaram quando decidiu deixar o emprego como designer em um escritório e partir em busca de si através da América Latina. Depois veio a Europa e então a Ásia, onde chegou pela primeira vez em 2017. 

No primeiro dia dessa viagem ganhou um livro que rememora mestras do budismo tibetano, e esse foi um primeiro passo em direção à sua própria busca por mestras mulheres e o despertar do feminino ao redor do mundo. Morena foi uma dessas mestras. 

Quando essas duas mulheres viajantes se encontram nasce um livro que vem para ressignificar uma visão ainda muito patriarcal sobre a menstruação, que atribui ao tabu e ao sujo um rito de passagem sagrado.  Como conta Julia, A Menina Que Virou Lua “vem para oferecer para as meninas, que estão entrando em contato pela primeira vez com o sangue menstrual, um território livre a amoroso, para que elas possam dançar ao ritmo de seus ciclos“.

Morena soma com um ponto importante: “a energia feminina está para além do gênero…  um corpo não define a subjetividade de um indivíduo. Então, eu diria primeiramente sobre como o livro contribui com uma pessoa que nasce com um útero, uma vulva, e que deseja viver esse processo de uma forma mais integral“.

Dica: As duas falam sobre esses encontro, o livro e a menarca no DanzaMedicina Podcast! Ouça aqui. 

À época do lançamento, ambas fizeram uma live onde compartilharam os processos de construção do livro e onde Julia conta sobre a sua primeira menstruação, em um grande encontro de danças circulares e rodeada de mulheres. E que apesar desse contexto acolhedor, ainda não compreendia muito bem aquele sangue e carregada sentimentos de culpa e vergonha, resultados de uma pressão externa que a nossa sociedade constrói sobre os corpos femininos desde a escola.

É importante salientar o quão pouco ou quase nada se ensina sobre a saúde feminina nos espaços de educação sobretudo públicos. E como compreender os processos de seus corpos, sob o aspecto biológico e também espiritual, se em muitos lares este é um assunto não dito e enquanto veículos de mídia ainda perpetuam desinformações? 

Muitas mulheres navegam na contramão deste pensamento misógino, que privam as mulheres desde muito cedo. A Menina Que Virou Lua, uma publicação infanto-juvenil, é uma contribuição neste movimento de ressignificar e resgatar um universo de possibilidades de subjetividade quando se pensa o feminino. 

O livro é uma luz amorosa no meio de toda uma realidade distópica… ele fala de sentir emoções, de chorar o que está engasgado, ele fala sobre ouvir a sabedoria dos antigos, sobre aprender a ficar quieto quando os ruídos internos precisam ser escutados. Ele fala para uma menina o que pouquíssimas mulheres ouviram: sobre o poder e a beleza de possuir um corpo que sangra, que ovula, que é cíclico – um corpo pulsante que é orquestrado pelo mistério do cosmos e da lua -, enquanto também cria ranhuras nas estruturas de normatização dos papéis sociais da mulher, dos estereótipos que já tanto nos limitaram e ainda nos limitam.” (Morena Cardoso)

A ilustração permeou as mesmas emoções das palavras, sendo também para Julia um processo de descobrimentos:

Após muita expansão chegou o momento de tecer meu próprio casulo e embarcar em um longo período de recolhimento e auto-observação. A cada fase do meu ciclo menstrual, eu coletava sensações para traduzi-las em imagens e quando o meu sangue vinha, eu o usava como tinta, junto à aquarela. Foi uma honra dar vida aos personagens criados pela Morena. Busquei representar diferentes tipos de mulheres e abrir janelas de conexão com o sutil, desenhando chákras, animais de poder e outros elementos simbólicos e lúdicos.

A Menina Que Virou Lua é um convite, uma parcela do trabalho tanto de Morena Cardoso como Julia Vargas. 

Morena está à frente do DanzaMedicina, um projeto multilinguagem e plataforma que já percorreu mais de 11 países com conferências, workshops e retiros. Acompanhe aqui.

Julia é uma ilustradora “pelo despertar da Consciência”. Seus traços estampam murais, o livro de Morena, e projetos como o Mandala Lunar e o Gestar Parir Amar. Siga!

O livro “A Menina Que Virou Lua” está esgotado no site da Editora Letramento e algumas plataformas digitais, mas encontra-se disponível na Amazon.  

Não existe comentário.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

WordPress Appliance - Powered by TurnKey Linux