Musical Elza

elza

A vida de Elza Soares é digna de roteiro de cinema, com altos e baixos em contrastes tão demarcados, mas é no palco do teatro que toda a intensidade, dor e esperança de sua luta se materializa. “Elza” é um musical sobre sua vida. Mais do que isso: sobre o que a cantora de 88 anos significa para a música brasileira e para tantas mulheres desse país. A montagem tem direção de Duda Maia e está em cartaz no Teatro Riachuelo, centro do Rio de Janeiro, até 30 de setembro.

Foto: Divulgação / Leo Aversa

 

As histórias por trás de Elza

Elza nasceu na periferia oeste do Rio de Janeiro, na comunidade hoje conhecida como Vila Vintém, bairro de Padre Miguel. Como muitas mulheres brasileiras, sua história é atravessada pela violência doméstica e a extrema pobreza. Aos 11 anos de idade teve sua primeira reviravolta ao ser obrigada a se casar com o amigo do pai, com quem teve um filho antes mesmo de completar 13 anos. Sem estruturas, este veio a falecer. Aos 15, ainda sob o casamento forçado e já vítima de violência, assistiu a morte de seu segundo filho. Aos 21 já era viúva e mãe de cinco. Trabalhava em fábricas ou como empregada doméstica, mas já em meio a tantos traumas a música era o seu refúgio. Durante todos esses anos, desde a época de seu primeiro filho ainda na infância, Elza já participava de shows de calouros muito comuns nas rádios da época, e estes foram os primeiros passos para a carreira que conhecemos hoje.

Elza lançou este ano seu 33º disco: Deus é Mulher. O antecessor, A Mulher do Fim do Mundo (2015), lhe rendeu o prêmio de Melhor Álbum de Música Popular Brasileira na edição latina do Grammy, maior premiação musical do mundo. O caminho entre a infância pobre e o reconhecimento internacional é marcado de altos e baixos: ganhos na música, perdas na família. Além dos filhos, três somado ao quinto filho Gilson, morto em um acidente de carro, perdeu também a mãe em mesma circunstância. Teve também um casamento duradouro com o futebolista Garrincha, qual não fugiu do contexto da violência doméstica.

Todas essas dores são latentes nas músicas de Elza, e estes mesmos sentimentos saltam no musical que leva o nome da cantora. Não espere por acompanhar sua história linearmente, com cada passo ilustrado. “Elza”, o musical, é uma imersão ao interior do ser de Elza. Um passeio por suas memórias, suas lutas, suas conquistas e as mais diversas sensações.

Foto: Divulgação / Leo Aversa

O texto de Vinícius Calderoni caminha pelas diversas vivências de Elza, e cada passo embala nos ritmos do diretor musical Pedro Luís. Por mais que a vida da cantora seja um mar de dores, a mensagem é de paz e superação. Elza é símbolo de resistência. Mulher negra, de origem pobre, que quase aos 90 ainda canta sobre sua realidade. Sete atrizes foram necessárias para expressar essa explosão de vivências que é a vida de Elza: Larissa Luz, Janamô, Julia Dias, Késia Estácio, Khrystal, Laís Lacôrte e Verônica Bonfim.

A música não compõe as falas, mas é o plano de fundo que arrebata o musical por completo. Desde os mais antigos sucessos como a inesquecível e incomparável A Carne até os destaques dos dois últimos álbuns. Até mesmo o cenário foge de uma construção realista. O espaço faz alusão ao lúdico das memórias de Elza, a começar pelos baldes de ferro fazendo referência ao fazer de Elza ainda pequena, quando ajudava a mãe a carregar água com baldes na cabeça.

Elza, tanto a artista como a obra, é arte. É sensação, vivência, é política. A história é de Elza mas também de incontáveis mulheres do Brasil. As atrizes naquele palco não representam Elza, elas são a própria. Atrizes negras, com uma banda compostas apenas por mulheres, saudando uma das maiores vozes do Brasil.

Em 1999, Elza foi eleita pela BBC de Londres a cantora brasileira do milênio. Com Elza, o musical, você vai sentir o porquê.

 

Comprar

Não existe comentário.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

WordPress Appliance - Powered by TurnKey Linux