Nós, Madalenas: Uma palavra pelo feminismo

Nós Madalenas – Uma palavra pelo feminismo é um projeto de Maria Ribeiro que reúne mais de 100 fotografias e relatos de mulheres que escreveram no próprio corpo uma palavra para representar o espaço que o feminismo e a luta pelos direitos das mulheres têm em suas vidas. O trabalho, que rendeu exposições, livro e um prêmio internacional, foi uma iniciativa para empoderar essas mulheres e também protestar contra a forma como a publicidade retrata o corpo feminino.

Não tem como uma mulher não se sentir representada ali, porque tem tantas histórias, de tantos corpos, idades, contextos diferentes… Ele é uma representação muito plural do que cada mulher passa dentro do seu recorte dentro de uma sociedade misógina e patriarcal.

Nós, Madalenas – Uma palavra pelo feminismo

Na capa, a modelo é a própria fotógrafa, que escolheu a palavra liberdade para abrir as mais de 100 experiências compartilhadas no projeto. O Nós, Madalenas surgiu de forma ingênua, como um experimento de Maria, que até então atuava profissionalmente com publicidade. Maria é formada em audiovisual, com especialização em direção de fotografia, e quando ainda atuava com publicidade, passou a ter contato com o feminismo e questionar o seu próprio campo profissional. “Comecei a observar a criação dos padrões de beleza que a gente consome enquanto sociedade, e o quanto esses padrões eram irreais. Mesmo as modelos que já passaram por um processo excludente, racista, gordofóbido, etc, não se pareciam com as imagens que são divulgadas para o público”.  

Em Nova York, ela fotografou um grupo de mulheres, todas modelos plus size que um dia foram consideradas “modelos convencionais”: “Elas falam do problema para a saúde mental que era se verem em fotos e não se reconhecerem, e eu comecei a perceber que eu estava participando da criação desse padrão que fazia com que milhares de mulheres no mundo todo, eu inclusive, se odiassem e odiassem os seus corpos”. Foi a partir dessas primeiras reflexões que surgiu o Nós, Madalenas, em um momento que Maria define como “crise existencial”: “Eu não estava feliz com o meu trabalho, com a forma como eu estava fazendo, não estava feliz com a ausência de projetos pessoais na minha vida… tanto que o Nós, Madalenas foi o meu primeiro projeto, e eu fiz ele muito mais para mim, eu precisava de algo que fosse gratificante para mim”.

Vanessa Rodrigues (Foto: Maria Ribeiro/Nós, Madalenas)

As primeiras fotos foram de amigas, que compartilhavam para mais amigas que também se interessavam em participar. Foi na plataforma Tumblr onde Maria começou a reunir esse projeto, e quando o trabalho viralizou nas redes, sendo notícia em grandes portais de conteúdo de cultura e política do país. “Eu criei uma página no Facebook para o projeto e em menos de 24 horas tinha 2 mil curtidas e todo mundo querendo participar. Na época fiquei inclusive assustada, porque eu não tinha local, equipamento, não tinha estrutura para abarcar um projeto assim. Isso não foi pensado antes. Então foi tudo sendo feito ao mesmo tempo em que as coisas foram acontecendo.

Nós, Madalenas: fotografia humana

O contraponto que o Nós, Madalenas faz com a publicidade tradicional é permitir que as mulheres sejam protagonistas da própria imagem e também história, e não apenas objetos de uma propaganda. Maria conta que na fotografia não se ensina a produzir imagens humanas, e que o Nós, Madalenas foi a sua maneira de aprender e criar na prática o seu próprio processo fotográfico. “Eu uso técnicas de respiração, yoga, aromaterapia, meditação, música, uma série de elementos que são muito importantes quando eu me aproximo de uma mulher, toco a história dela, quando eu retrato esse encontro dela com a sua própria narrativa, com o seu próprio corpo”.

O projeto foi essencial não só para essas mulheres como para ela própria, transformando sua vida profissional e também pessoal. Maria conta que apenas no ano passado conseguiu lidar com esses traumas, quando publicou um relato contando sobre os anos de abusos físicos, emocionais e psicológicos que sofreu de um guru religioso em uma seita espírita paulista. “Entrar em contato com todas as histórias dessas mulheres me fez ressignificar a minha própria história e mexer em muitos traumas, em muitas coisas que eu nunca tinha conseguido exteriorizar, e é um processo que durou anos”.

Larissa Rosa (Foto: Maria Ribeiro/Nós, Madalenas)

O que era um projeto pessoal e particular se tornou público quando além das 100 mulheres fotografadas ainda haviam 500 pedindo para participar. Apenas algumas poucas foram convidadas, como a filósofa Djamila Ribeiro e a arquiteta e escritora Joice Berth. Maria apenas encerrou o projeto em 100 nomes por não ter condições financeiras de arcar com os custos da produção, sendo o projeto independente e sem investimento externo.

O nascimento do livro também foi espontâneo. A ideia era publicar todas as imagens e histórias em um blog, até surgir o convite da Fonte Editorial para a versão física: “As mulheres que vinham participar acabavam compartilhando muito comigo das suas próprias histórias, e eram histórias tão marcantes e profundas e tão importantes que eu gostaria de conseguir compartilhar elas com o mundo. Mas a minha ideia na época era fazer um blog, um livro não tinha realmente passado pela minha cabeça”. O livro foi publicado no final de 2015 com financiamento coletivo e lançamento na Livraria Cultura de São Paulo, em evento que ainda teve espaço para mesa de debates. O reconhecimento foi tão grande que em 2017 Maria Ribeiro recebeu o Prêmio Ivone Herberts da ONU Mulheres e esteve na sede, em Nova York, para compartilhar a sua experiência.

Maria Luiza (Foto: Maria Ribeiro/Nós, Madalenas)

Nós, Madalena e o Mito da Beleza

Depois do Nós, Madalenas, Maria continuou com outros projetos de fotografia voltados para o empoderamento feminino, ao lado de indígenas, quilombolas, mulheres sertanejas, e vivências fotográficas, onde as mulheres têm uma oportunidade de se encontrarem e se projetarem de uma forma diferente. Todo o seu trabalho é pautado no Mito da Beleza, trabalho da antropóloga Naomi Wolf, publicado em 1990, que reflete como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres: “Eu cito um trecho desse livro que diz que a obsessão, por exemplo, da sociedade com a magreza feminina não é uma obsessão com a beleza feminina, mas sim com a obediência feminina. Que as dietas e restrições alimentares tinham sido sedativo político mais potente das últimas décadas, porque uma população passivamente insana é muito mais fácil de ser controlada.” Maria também cita Beatriz Gimeno, escritora e ativista espanhola que diz que “uma mulher que não se ama completamente não pode ser livre, e o sistema trata de fazer com que as mulheres não se amem nunca”.  

Unindo este conhecimento, sua própria história, e as vivências compartilhadas por todas as mulheres que já fotografou, Maria define o Nós, Madalenas como um “projeto de autoconhecimento”, para ela e as participantes. Conta ainda que dentre todas as que já passaram por suas lentes, dentro ou fora do Brasil, nunca encontrou uma mulher que não tivesse alguma questão ou trauma com o próprio corpo.

A gente vive numa sociedade que praticamente obriga a mulher a odiar o seu corpo desde que ela se lembre por gente. O que essa sociedade promove é uma relação abusiva e um constante sentimento de insegurança e insatisfação. Você vê que essa falta de conexão entre a mulher e o próprio corpo gera consequências muito sérias, porque o corpo que carrega a cabeça. Se a gente não tem uma relação saudável entre a mente e corpo, essa desconexão traz uma série de problemas, e essa relação abusiva que a mulher cria com ela mesma abre portas para que ela estabeleça relações abusivas em vários outros aspectos da vida dela, como social, afetivo, familiar, profissional. Então quando a gente fala sobre nossos corpos, a gente tá falando de um sistema que nos oprime, que nos agride e nos deixa vulneráveis através de nossos corpos.

Li Lie (Foto: Maria Ribeiro/Nós, Madalenas)

Para 2019, Maria Ribeiro desenvolve um projeto novo ainda em segredo, que pensará a cura desses traumas impostos a toda mulher, mas sem maiores detalhes. Para ela, a cura está no movimento e nas próprias mulheres: “É uma troca muito forte quando a gente se coloca para o outro com muita verdade, autenticidade, e isso tem uma força imensa que a gente ainda não consegue mensurar. Por isso que eu acredito, com muita força, que nós mulheres somos realmente a cura uma da outra.

Acompanhe o trabalho de Maria pelo Instagram, Facebook e Site Oficial.

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