O Inferno e o Feminicidío

Outro dia, no mês passado, resolvi rever “O Inferno”, documentário sobre o filme nunca finalizado do Henri-Georges Clouzot, que virou uma lenda. Aí descobri que no dia que revisitei essa história, completavam 43 anos da morte do cineasta francês. E no mesmo dia me deparei com notícias alarmantes dobre o feminicídio no Brasil. É que o filme que Clouzot nunca terminou era um estudo sobre o ciúme, e naquele instante lembrei que a principal causa do feminicídio é o ciúme. Embora as imagens feitas para o filme tenham permanecido inéditas por mais de quatro décadas, em 1994 o cineasta Claude Chabrol rodou o roteiro de Clouzot com Emmanuelle Béart, no filme “O Ciúme”.

Fiquei matutando dias sobre o documentário e sobre as taxas de feminicídio, que é o homicídio praticado contra a mulher em decorrência do fato de ser uma mulher. Sei que o tema é delicado, ainda mais por eu ser um homem comentando sobre o assunto. Resolvi, então, falar aqui sobre ambos, fazendo um cruzamento entre o lendário filme nunca realizado do cineasta francês e os crimes – cada vez mais crescentes – contra mulheres no Brasil e na América Latina. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, entre 2016 e 2018 foram mortas cerca de 3.200 mulheres, mas uma estimativa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), indica que, no mesmo período, mais de 3 mil casos de feminicídios não foram notificados. O crime torpe, que acontece por motivos como terminar um relacionamento ou não corresponder ao amor de alguém, fez com que milhares de mulheres tivessem suas vidas ceifadas.

“O Inferno”, o filme, não foi finalizado e ninguém sabe que fim o cineasta daria para a personagem de Romy Schneider, cuja beleza explorada tanto em cores, quanto em preto-e-branco é sublime. Seria ela assassinada pelo marido enlouquecido de ciúmes? A pergunta fica no ar, mesmo após o término do documentário, que só foi possível devido às 185 latas e 13 horas de imagens que restaram. Clouzot iniciou as filmagens em 1964, com Romy e Serge Reggiani no elenco. Era uma das mais caras produções francesas da História e retratava um conturbado relacionamento atravessado pelos delírios ciumentos do marido. Mas após algumas semanas de trabalho o ator principal ficou doente [dizem que não aguentou as loucuras do diretor], Clouzot sofreu um ataque cardíaco e a produção foi interrompida. Quarenta anos mais tarde a viúva do diretor liberou os registros da época para Serge Bromberg e Ruxandra Medrea realizarem esse documentário perturbador.

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“O Inferno” e seu criador são cercados de curiosidades. Conta a lenda que Hitchcock considerava Clouzot um rival, e que uma de suas motivações para filmar “Psicose”, de 1960, era superar “As Diabólicas”, que o mestre francês havia lançado cinco anos antes. Também é falado que ainda no início da carreira, o diretor grego Costa-Gravas foi chamado para ser o primeiro-assistente de Clouzot, e que recebeu durante uma noite uma cópia do roteiro que era imenso; ansioso que era, o francês ligou uma hora depois perguntando o que ele havia achado, e não contente ligaria mais duas vezes naquela mesma noite. Também é sabido que Clouzot tinha insônia. Uma das atrizes do filme, Catherine Allégret, filha de Simone Signoret e enteada de Yves Montand, disse que “ele não dormia e não queria que ninguém dormisse”. Tanto, que as filmagens começavam cedo, 7h, 7h30 da manhã, muito embora o diretor – insone – acordasse diversos dos colaboradores dizendo que acabara de ter uma ideia e que queria discuti-la com a equipe. Fala-se que a possibilidade de trabalhar com um orçamento colossal praticamente enlouqueceu o cineasta, que na década de 1930 passou por instituições psiquiátricas. Outra curiosidade sobre o cineasta é que ele foi casado com a carioca Vera Gibson-Amado, cuja carreira de atriz limitou-se a três filmes do marido, incluindo seus clássicos “Salário do Medo e “As Diabólicas”.

Cineasta altamente metódico que planejava cada um de seus quadros com a precisão de um relojoeiro, Henri-Georges Clouzot tinha uma natureza obsessiva em relação ao trabalho. Seu objetivo era fazer com que seu filme se destacasse justamente ao dar vida aos delírios enciumados de Reggiani. As cenas “normais” seriam rodadas em preto-e-branco, mas as fantasias do personagem era em cores. O diretor pretendia criar efeitos ópticos inovadores através de jogos de sombras, luzes, maquiagem e sobreposição de imagens. Clouzot queria distorcer imagens, mostrar o mundo como se visto por intermédio daqueles espelhos de parques de diversões, que deformam as pessoas. Queria mostrar visualmente a loucura, e incorporou em sua obra experimentos das artes visuais da época como a arte cinética e a op art.

Ele também integrou no filme diversos recursos experimentais como a inversão de cores, distorções e a música eletroacústica. Um exemplo são as experimentações quando destacava as mudanças na expressão de Romy Schneider em planos criados apenas a partir do jogo de sombras sobre o rosto da atriz. No documentário um assistente de câmera explica que os insistentes zooms in e out exigidos pelo cineasta foram batizados pela equipe de “coito óptico”. No filme, a inocência da imperatriz Sissi, papel que deu fama e muito dinheiro para Romy Schneider, deu lugar a uma mulher que além de ser lindíssima, tem uma sensualidade avassaladora. Em “O Inferno”, parafraseando Caetano Veloso,  “o ciúme lançou sua flecha preta” e sobre toda sala paira, monstruosa, a sua sombra. Mas deixou rastros de uma possível obra-prima do cinema que nunca foi finalizada.

O Inferno do feminicídio

Segundo a ONU, o feminicídio é entendido como o assassinato intencional de mulheres somente pelo fato de serem mulheres. A questão envolve hierarquia, patriarcado e, principalmente, a desigualdade social, que muitas vezes produz pessoas cada vez mais violentas. Pelo menos 15 países da América Latina, classificam como feminicídio os assassinatos motivados pelo gênero da vítima. Estima-se que 12 mulheres sejam assassinadas todos os dias por causa de seu sexo. Segundo a Organização, 14 dos 25 países com as maiores taxas de feminicídio no mundo ficam na América Latina. E mais de 95% desses crimes contra mulheres não são tratados como feminicídio, o que aumenta o casos de impunidade. Muitos países latino-americanos ainda não contabilizam os feminicídios com precisão. Existem grandes diferenças entre as estatísticas oficiais e os números apurados pelas organizações de defesa dos direitos das mulheres. Para se ter uma ideia, só há uma década países latinos adotaram políticas para proteger as mulheres. Em 2010, o Chile tipificou o feminicídio em seu código penal, seguido pela Guatemala (2010), Costa Rica (2012), Bolívia (2013), El Salvador (2013), Nicarágua (2013), Argentina e Equador (2014). Só em 2015 o Brasil se juntou ao grupo.

No ano passado, os casos de feminicídio bateram recorde em São Paulo. A maioria dos crimes ocorreu dentro de casa, sendo 79% dos casos tendo como criminosos companheiros ou ex-companheiros das vítimas, e a média de idade das mulheres vitimadas no ano passado tenha sido 36 anos. Foram 154 casos entre janeiro e novembro de 2019, superando as 134 ocorrências durante 2018. Incluído no Código Penal em 2015, que trouxe mais segurança jurídica para as mulheres e familiares ao tipificar com penas mais severas quem comete feminicídio, ele é um crime considerado um assassinato qualificado. Segundo o advogado criminalista David Metzker, é um tipo de crime doloso, aquele em que há intenção de matar. É o assassinato de uma mulher em razão de gênero, da condição do sexo feminino”; e completa, “o autor do fato, geralmente, é pessoa próxima à vítima, não necessariamente tem uma relação amorosa, mas quer demonstrar uma superioridade em relação à mulher”.

O crime é punível com 12 a 30 anos de reclusão e a pena pode ser aumentada em até 50%, caso o crime seja praticado quando a mulher estiver grávida ou até três meses após o parto, na presença da família da vítima ou contra pessoa menor de 14 anos, maior de 60 anos ou com deficiência. Mas embora o fato de ter leis de proteção que representam grandes avanços civilizatórios, uma vez que reconhecem o problema, o problema está longe de ser solucionado. Para combater o crime é preciso mobilização nas áreas da saúde, da educação e da assistência social, afinal, a violência não é só física, ela também é moral e psicológica. E é fundamental não só encorajar, mas principalmente permitir a essas mulheres vítimas de violência a denunciarem seus agressores com efetiva garantia de proteção. Pelas estatísticas a existência da lei não só não intimida os agressores, como também não motiva as vítimas a fazerem denúncias.

Rio de Janeiro – Mulheres fazem ato contra a cultura do estupro na igreja da Candelária, centro do Rio (Tomaz Silva/Agência Brasil)

Em um depoimento ao HuffPost, Esther Pineda, socióloga venezuelana e autora de “Cultura Feminicida: O Risco de Ser Mulher na América Latina”, disse que todos os dias mulheres são mortas na América do Sul e Central vítimas de violência machista, e afirma que esses assassinatos são um massacre silencioso. “Dar visibilidade às estatísticas de feminicídio é essencial para mostrar a real magnitude do problema para a sociedade, os políticos e a mídia. Em alguns países latino-americanos, dados sobre feminicídio são manipulados e informações são ocultadas para acobertar falhas da polícia e dos tribunais”. Ainda lembrando Caetano, precisamos acabar com as flechas pretas que o ciúme lança e fazer que cada vez menos sua sombra monstruosa paire sobre toda sala, quarto, cozinha e rua de cada cidade.

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