O Vaivém da Ini

A exposição “Vaivém” em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo, que seguirá em itinerância para outras unidades do centro cultural no país, convida o espectador/observador a uma pausa visual e sensorial por intermédio de um objeto, um utensílio que ajudou a construir a identidade nacional no Brasil, a rede de dormir. A mostra caracteriza-se por seu caráter trans-histórico, reunindo artistas de distintos contextos sociais, diferentes períodos e regiões do país, que refletem sobre permanências, rupturas e resistências na representação e nos usos das redes de dormir na arte e na cultura visual brasileiras.

Com curadoria de Raphael Fonseca, a mostra reúne mais de 300 obras de coleções públicas e privadas, que vão do século 16 ao 21, de cerca de 130 artistas, incluindo Bené Fonteles, Armando Queiroz, Claudia Andujar, Tarsila do Amaral, Tunga, Debret, Rugendas, além de obras inéditas de artistas contemporâneos indígenas, como Arissana Pataxó, Denilson Baniwá, Duhigó Tukano, Jaider Esbell, o coletivo MAHKU, e ainda redes de artesãs brasileiras feitas especialmente para o projeto. A exposição que ocupa cinco andares do centro cultural, busca desconstruir o lugar que as redes ocupam no senso comum brasileiro, associado à preguiça, à malemolência tropical.

Zanzando pela exposição. Deitando aqui e acolá em algumas das redes da instalação do coletivo Opavivará no terréo do edifício, disponibilizadas para o público aproveitar a fruição da experiência que é percorrer a mostra, fiquei pensando na importância da rede na vida das pessoas e na sua história. Em Roma elas eram status de transporte, na França, status de riqueza; nos navios, serviam como cama para os marinheiros. Legado dos indígenas da América do Sul, teve grande importância na sociedade brasileira dos primeiros anos do descobrimento e durante toda a época colonial, quando era muito utilizada para dormir, enterrar os mortos no meio rural e como meio de transporte, onde os escravos carregavam os colonos em passeios pela cidade e até em viagens.

O uso da rede para dormir é bastante antigo e é um costume herdado dos indígenas brasileiros. Eles chamavam a rede de ini. Foi em 27 de abril [ela já nasceu taurina] de 1500 que Pero Vaz de Caminha, navegante português, escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral, que sem procurar saber o nome já usado pelos indígenas, a chamou pela primeira vez de rede de dormir, pela semelhança com a rede de pescar. Com a vinda dos portugueses para o Brasil, as mulheres dos colonos adaptaram a técnica indígena às suas varandas, passando a fazer as redes em algodão (tecido mais compacto), enfeitadas com franjas. Hoje em dia elas são fabricadas de diversas formas e materiais, desde as mais tradicionais de fio, tecidas em “batelão” (tear) mecânico ou elétrico, até as feitas a partir de tecido ou de materiais sintéticos como nylon e outros materiais. Na minha terra, Alagoas, e em todos os Estados do nordeste do país, a rede ainda é muito utilizada para dormir em substituição à cama, sendo também tradicionalmente utilizada para descanso em casas de praia.

Lá em seus primórdios, de origem indígena ameríndia, que era originalmente chamada de “hamaka” e feita com cipó e trepadeiras, a rede de dormir nunca deixou de ser o que sempre foi em sua essência, um tipo de leito constituído de um retângulo de cipó ou tecido e suspenso pelas duas extremidades, terminadas em punhos ou argolas, que são presas a armadores ou ganchos, pregados em geral nos portais ou sob árvores frondosas e em que as pessoas se deitam para dormir ou descansar. Mas em “Vaivém, a rede de dormir ganha novos contornos, significados, e proporciona de uma só tacada, como deveriam ser a maioria das mostras, acesso à arte, cultura, história e comportamento por outro viés.

Diante da insatisfação gerada pelo modelo centrado na idolatria do trabalho e competitividade, uma pausa no trabalho e na vida é fundamental para experimentar um outro estado mental e físico. Nas empresas japonesas, por exemplo, quando uma pessoa está em silêncio em sua mesa parecendo não fazer nada, os colegas não interrompem, pois um trabalho muito importante está em curso: o pensamento. Nesse país em transe surreal contínuo, é mister deitar em uma rede nem que seja para dormir, mas principalmente pensar. Não foi à toa que um dos maiores empreendedores da história, o americano Henry Ford disse: “Pensar é o trabalho mais difícil que existe. Talvez por isso tão poucos se dediquem a ele”.

Aproveite e vá ver as redes e deitar nelas e pensar sobre elas, literalmente. Pensar, nesses tempos obnubilados pela censura e pela surrealidade dos fatos políticos que se sucedem, além de ser um artigo de luxo, é grátis. “Vaivém” segue até 29 de julho. E é gratuita.

 

 

 

 

 

 

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