Pro Dia Nascer Feliz – 30 anos sem Cazuza

Eu tinha 20 anos quando ouvi e vi o Cazuza ao vivo pela 1a vez – e única – na vida. Foi na minha cidade natal, Maceió, em pleno verão, no dia 21 de janeiro de 1989, na praia da Pajuçara, e o show era o Ideologia. A estimativa da época é que haviam oito mil pessoas na ocasião, que fazia parte do evento “Esquenta Verão”, festival que trouxe à cidade atrações como Paralamas, Titãs, RPM, Biquini Cavadão, Kid Abelha, Lulu Santos, Lobão, entre outros. Naquele momento eu não tinha ideia que estava presenciando um acontecimento histórico, visto que foi uma das suas últimas apresentações. Muito debilitado devido às complicações decorrentes da Aids, ele disse em certa altura do show “O meu amor agora está perigoso, mas não faz mal. Eu morro, mas morro amando”, numa clara e poética alusão à doença. Cazuza era assim, mesmo diante da possibilidade da morte, havia sempre nele vida, poesia e amor.

Cazuza dinamitou a década de 1980 com letras debochadas, irreverentes e irônicas, carregadas de alta voltagem poética. Junto a Renato Russo, ouso dizer, ele colocou o rock brasileiro em um patamar que poucos artistas da música popular brasileira alcançaram. Sua obra sobrevive para além do seu tempo. Como esquecer músicas emblemáticas do cantor e compositor morto em 1990 como ExageradoPro dia nascer feliz e O tempo não para e Bete Balanço, para citar algumas que ecoam mais atuais do que nunca? Até hoje não há como esquecer a Brasil, canção regravada por Gal Costa e que se tornaria tema de abertura da novela Vale Tudo, e que reverbera atualíssima hoje. Ele é considerado um dos maiores letristas do rock nacional e seu legado tem sido preservado pela sua mãe, Lucinha Araújo, responsável pela Sociedade Viva Cazuza, organização que presta assistência a pessoas afetadas diretamente ou indiretamente pelo vírus HIV. Cazuza foi um cometa, um meteoro que passou pela música brasileira, um roqueiro que amava a bossa nova e a MPB., sem nunca deixar a poesia de lado. Um bardo.

O começo

Filho da costureira Lucinha Araújo, Cazuza era de uma família de classe média alta do Rio de Janeiro. Por conta do ambiente profissional de seu pai, cresceu cercado por artistas como Elis Regina, Caetano Veloso e os Novos Baianos. Entre as curiosidades que envolvem o mito construído em torno dele, destacam-se algumas boas histórias. Durante sua juventude foi colega de escola e amigo do jornalista Pedro Bial. Quando tinham 11 anos, os dois deveriam entrevistar alguém importante para um trabalho da escola. O pai de Cazuza, o produtor musical João Araújo, que foi presidente da gravadora Som Livre, conseguiu que o poeta e compositor Vinicius de Moraes recebesse ambos, e segundo a lenda concedeu a entrevista em sua banheira e deu uísque para os dois, tendo se impressionado com o conhecimento de Cazuza e Bial. Aos 15 anos, Cazuza também seguia o poeta Carlos Drummond de Andrade quando saía para passear no Leblon e em Ipanema. Em uma entrevista para o jornal O Estado de São Paulo, sua mãe lembrou que costumava alertá-lo: “meu filho, ele vai achar que você quer assaltá-lo”, e ele respondia que o poeta nem reparava e que ele fazia isso porque o admirava muito.

Foi com 17 anos que Cazuza conheceu o cantor Ney Matogrosso. Os dois tiveram um relacionamento amoroso curto, porém a amizade permaneceu. Quando matriculou-se no curso de teatro ministrado por Perfeito Fortuna e a trupe Asdrúbal Trouxe o Trombone no Circo Voador, no Arpoador, no Rio, Cazuza descobriu que gostava mesmo era de cantar. Ele foi indicado por Léo Jaime para ser o vocalista de uma banda de adolescentes chamada Barão Vermelho. Foi aprovado no primeiro ensaio. O grupo era formado por Frejat (guitarra), Dé (baixo), Maurício Barros (teclado) e Guto Goffi (bateria), e o primeiro show do Barão Vermelho foi em um festival em um condomínio, na Barra da Tijuca, com Cazuza bêbado. Sua mãe marcou presença na apresentação.

Barão Vermelho

O Barão Vermelho só foi gravar seu primeiro disco pela Som Livre após muita insistência do icônico produtor Ezequiel Neves, e do diretor artístico Guto Graça Mello. O pai de Cazuza não aceitava gravar as músicas de seu filho. Só após muitas tentativas de ambos é que ele resolveu dar uma chance à banda. Ezequiel e Guto haviam se encantado com um fita demo da banda, gravada em 1981. O primeiro álbum do Barão vermelho foi lançado um ano depois, e Cazuza e Frejat compuseram boa parte das faixas. Esta parceria continuaria potente nos três primeiros discos. Até o segundo disco, o Barão Vermelho não tinha apelo comercial ou tocava nas rádios, mas tudo mudou quando Ney Matogrosso regravou Pro Dia Nascer Feliz, que se tornou o primeiro hit da banda. A faixa também ajudou a impulsionar as vendas do terceiro álbum do grupo, Bete Balanço, trilha sonora de filme com o mesmo nome, de 1984. Mas na época haviam conflitos. Cazuza queria experimentar um repertório mais abrangente, explorando suas referências da MPB, enquanto Frejat queria que o Barão Vermelho focasse mais no rock. Em janeiro de 1985, o Barão Vermelho se apresentou na primeira edição do Rock in Rio. O show coincidiria com a eleição do presidente Tancredo Neves, simbolizando o fim da ditadura militar. Cazuza anunciou esse fato ao público presente e para comemorou cantando Pro Dia Nascer Feliz.

Em uma entrevista em 1985 ele disse que nunca tinha estudado canto e nem dança, “aliás, você pode ver por minha voz rouca. Eu sou rouco, eu birito, não tenho nenhum cuidado com a voz, não faço nenhum exercício, meu exercício é o palco”, afirmava. Mas era inegável sua habilidade com as palavras. Observador sagaz do cotidiano, Cazuza usava de uma assertividade desconcertante como um cronista social da sua época. E das que viriam. Talvez a melhor definição dele veio do amigo e ex-parceiro Roberto Frejat, na homenagem contida na música “O Poeta Está Vivo” (uma parceria do ex-guitarrista do Barão Vermelho com Dulce Quental): “O poeta está vivo / Com seus moinhos de vento / A impulsionar A grande roda da história“.

Exagerado e intenso

O poeta exagerado foi um símbolo daquele pulsante e necessário rock brasileiro dos anos 80. Ao contrário de Renato Russo, da Legião Urbana, que tinha uma postura mais introspectiva e messiânica, Cazuza era seu oposto complementar. Em novembro de 1985 é lançado Exagerado, o seu primeiro disco solo. A partir daí a música brasileira nunca mais seria a mesma. Caso estivesse vivo, Cazuza teria mais de 60 anos. Ariano, ganhou o apelido pelo qual ficou conhecido ainda na barriga da mãe. O seu pai começou a chamá-lo de Cazuza, sinônimo de moleque no Nordeste. No palco ele era rei, com uma performance avassaladora. É sabido que Cazuza realizava shows intensos, imprevisíveis, às vezes sob muito efeito de álcool e drogas. Foi só em uma entrevista a Zeca Camargo, publicada no jornal Folha de São Paulo, no dia 13 de fevereiro de 1989, que ele admitiu que tinha o vírus da aids.

Dia 7 passado completaram três décadas da morte de Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, que se foi muito jovem aos 32 anos. Nestes tempos de pandemia, de isolamento social, por mais que aos poucos cidades permitem flexibilizações, as suas palavras, a sua voz soam mais atuais do que nunca. Parafraseando Cazuza, o teu futuro é duvidoso, o meu também, o nosso. Para mim, ele brada até hoje em alto e bom som como um Apolo tropicalista apocalíptico sobre esse tempo, o hic et nunc, o aqui e agora. Um tempo dilatado, expandido, contraído, vivo, que não para.

 

“Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
[…]

Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não para

[…]

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para
Não para não, não para
.”

 

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