Protagonismo Negro

O dia da consciência negra deveria ser todo dia.

Não se deveria reivindicar o dia 20 de novembro como dia da “consciência negra”. Essa reivindicação deveria ser diária, todo dia do ano. O Dia da Consciência Negra é  celebrado em todo o território nacional na próxima semana, no dia da morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares. Mas, na real, o dia da consciência negra é todo dia, o protagonismo negro acontece independente de efemérides. Não tem que ser na quarta-feira da próxima que deve haver um momento de reconhecimento e reflexão sobre as lutas, conquistas e sofrimentos da população afrodescendente, além de reconhecimento do papel dos negros na construção do país. Não. Esse reconhecimento é diário, é aqui e agora, e deveria ter sido há tanto tempo atrás.

Mas claro que no Mês da Consciência Negra é importante para não só celebrar, mas – principalmente –reforçar a importância da cultura negra na formação do povo brasileiro promovendo uma reflexão acerca da ancestralidade africana, fundamental para a identidade do país. Em São Paulo, por exemplo, a Secretaria Municipal de Cultura realiza até o final do mês mais de 750 atividades, majoritariamente protagonizadas por artistas negros, entre encontros, shows, palestras, cinema, dança, circo, teatro, programação infantil, debates e roteiros de memória, realizadas em cerca de 130 pontos em todas as regiões da cidade, em casas de cultura, bibliotecas, teatros, centros culturais, salas de cinema do Circuito Spcine e também na plataforma de streaming Spcine Play. Um dos destaques da programação é o rapper Emicida, que lança no dia 27 o seu novo álbum, “AmarElo”, no Theatro Municipal de São Paulo. Um fato a ser comemorado, visto que o palco desse teatro raramente, quiçá nunca teve um protagonista negro. Também do dia 15 a 19 de novembro acontece no Centro Cultural Olido e no Centro de Referência da Dança, ambos na capital paulista, a primeira edição do Fórum de Performances Negras de São Paulo, que reúne artistas de todo país para debater a representação e a representatividade negra em cena. E até o dia 23 de novembro o Programa USP Diversidade promove a Segunda Semana da Consciência Negra da USP, com atividades em São Paulo, Ribeirão Preto, Santos e São Sebastião. A programação é gratuita e trata de temas como escravidão, racismo, cultura e representatividade negra.

Toda essa movimentação é fundamental para diagnosticar problemas sociais, identificando lacunas que separam brancos e negros. Porque o preconceito ainda existe, persiste, resiste – infelizmente – e são mais estruturais que estereótipos, pois esses são mais individualistas, pessoais. E a mídia tem sido e está sendo uma fonte de empoderamento para as comunidade negras. Embora na minha adolescência, mais de três décadas atrás, eu já não definia esse limite – ainda – denso entre brancos e negros. Para mim não existia cor, apenas pessoas, afetos.

A socióloga e ativista americana Patricia Hill Collins afirma que estamos na “era de ouro” da representação das mulheres negras na mídia. Não obstante, não adianta esse blá blá blá todo, essa profusão de mulheres negras e lindas estampando capas e conteúdo de revistas, com todo esse élan, se não vier acompanhada de uma participação política ativa. Ela é  autora do livro “Pensamento Feminismo Negro”, de 1990, e referência incontornável quando se fala do tema. Nos Estados Unidos, a maior potência do Globo, junto a Angela Davis e bell hooks, ela forma a tríade de ébano no que diz respeito ao feminismo e ativismo negro. Foi Patricia que ajudou a consolidar o conceito de interseccionalidade, quando questões de raça, gênero e classe estão interligados. Ela afirma que a violência não é apenas o ato da violência. O discurso também é. Esquecemos que as palavras podem ser farpas, torpedos, ter a delicadeza de um veludo, mas reverberam mais fortes que golpes físicos, pois persistem na memória, mais do que no corpo.

Atualmente estamos tendo acesso à imagens e representações que não tínhamos antes, como a Beyoncé lacrando nos shows, videoclipes, na vida real. Doido é pensar que exatamente um século atrás, teve um episódio histórico que ficou conhecido como “Verão Vermelho”, de 1919. Nele, os homens negros que voltaram da 1a Guerra Mundial, na qual tinham lutado como soldados em unidades segregadas pelos Estados Unidos, serviram ao país, mas ao voltarem para casa os cidadãos americanos se sentiram tão ameaçados por eles que passaram a linchá-los, porque não eram mais subordinados como antes, porque eles não eram mais quem os americanos brancos achavam que eles deveriam ser. Loucura coletiva, algo kafkaniano.

Nossa memória é fraca e nossa cegueira iluminada pela tela-espelho negro dos nossos celulares e computadores desconhece, por exemplo, a história de vida da matriarca Tereza de Benguela, uma representatividade feminina negra que viveu no período escravocrata no século 18 no Estado do Mato Grosso, e que se tornou um símbolo nacional de resistência e de luta contra a escravidão. É um equivoco o imaginário de que a população negra sempre foi muito passiva no período escravista. Não podemos nunca esquecer e nem minimizar o impacto que a escravidão causou no negro, seja  escravo ou  liberto. Aqui no Brasil também não podemos deixar de lembrar de nomes como da mineira Conceição Evaristo, romancista, contista e poeta, participante ativa dos movimentos de valorização da cultura negra no Brasil; nem das paulistas Djamila Ribeiro, filósofa e feminista; e Joice Berth, escritora, feminista negra, arquiteta e urbanista.

Todas as discussões e reflexões realizadas em novembro, o mês em que os negros têm o seu “lugar de fala”, deveriam reverberar por todos os meses do ano. Vale lembrar que o Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão em 1888. E que foi o tráfico de escravos e os trabalhos forçados de milhões de africanos que formaram as bases para o desenvolvimento do capitalismo no país. A intolerância racial é um dos grandes precursores das práticas de violência no país. E as estatísticas estão aí para comprovar. No Brasil, os negros representam 54% da população, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No grupo dos 10% mais pobres, os negros representam 75% das pessoas, mas entre o 1% mais rico, somam apenas 17,8% dos integrantes. Não podemos esquecer jamais que temos um presidente declaradamente racista, que capitaneia um momento político, social e cultural no Brasil marcado por um tsunami conservador, elitista e racista. E cuja fórmula do atual governo parece uma equação simples: retirada de direitos sociais e legislação de extermínio de pobres e negros.

A representatividade entra como fator importante na construção da subjetividade e na identidade negra e na conquista – cada vez mais – de espaço na mídia, no meio institucional, na política e na música, o que traz visibilidade para aquilo que era “invisível”. Lembro que nos contos de fadas, dos heróis e todo universo infantil serem retratados e protagonizados sempre por personagens não negros. Um exemplo raro do negro no universo infantil é o saci Pererê, um ser maléfico, justamente retratado como um pregador de peças, travesso, um sujeito nada confiável. Pois é, desde crianças vivemos e fantasiamos um mundo majoritariamente branco. Como se só existe esse tom de cor, esquecendo de todas as matizes de todas as cores. Esquecemos que dentro de nós, brasileiros, habitam negros, mulatos, mamelucos, cafuçus, índios, uma multidão. Essa reflexão não deve acontecer somente em novembro, mas durante todos os outros dias do ano. O protagonismo negro é aqui e agora. E sempre.

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