Quase Memória: Uma viagem no tempo em um cinema de sensações

Quase Memória

Quando o tempo passa e nos vemos perdidos, apenas um reencontro com o nosso eu do passado é capaz de nos fazer lembrar de quem realmente somos. É com essa premissa que Quase Memória, protagonizado por Tony Ramos e Charles Fricks, conta a história de Carlos, um jornalista que recebe em sua casa um pacote que vai fazê-lo voltar às mais profundas memórias do passado. Com muitas cores, movimentos e intensidade, o longa com roteiro e direção de Ruy Guerra viaja pelo campo dos sentidos: como flui a nossa memória, o tempo e as nossas emoções? Neste longa, o factual fica em segundo plano. O que importa é a experiência.

Sinopse: Carlos (Charles Fricks) é um jornalista que, em um dia qualquer, recebe um pacote diferente. Através da letra e do embrulho, ele logo nota que o remetente é seu próprio pai, Ernesto (João Miguel), que morreu há alguns anos. Espantado, Carlos fica em dúvida se deve ou não abrir o pacote. Enquanto isso, que relembra divertidas memórias que teve ao lado do pai.

O filme é adaptação de um romance de mesmo nome lançado em 1995 sob autoria de  Carlos Heitor Cony. Best-seller, a publicação foi um retorno do escritor aos livros de romance, após 20 anos de seu último trabalho do mesmo gênero. Para as telas, o contexto é similar. Quase Memória é um retorno do diretor e roteirista Ruy Guerra ao cinema, após 10 anos desde seu último trabalho, O Veneno da Madrugada, lançado em 2005. O filme chegou ao Festival do Rio, um dos principais festivais internacionais de cinema do país, em 2015, e nele recebeu o prêmio especial do júri. Às salas de cinema chegou no último dia 19 de abril.

A construção do enredo de Quase Memória

Em meios às cores, movimentos, e saltos no tempo, ambas as versões de Carlos se encontram num palco de teatro: Fricks como o Carlos do passado, entusiasmado, decidido e pronto para a vida; Ramos mais à frente dá vida ao Carlos da linha de chegada, cansado do tempo, nostálgico em suas próprias fantasias. Todos os artifícios do lúdico se unem para dar ao longa a ambientalização da memória afetiva. O passado não é representado em tons de preto e branco como na maioria dos filmes, mas com cores fortes que demonstram a paixão que Carlos vivenciada à época. Já o presente, com câmeras lentas, quase estáticas, e tons mais sóbrios, contrastam o desânimo e a apatia que o tempo trouxe ao personagem.

Outro ponto interessante à construção da obra foi a decisão de criar dois Carlos em uma mesma cena. Na obra original, havia o diálogo com o passado mas não a interação tão intensa promovida por Ruy. O diretor explica ao Estadão: ““Com a sucessiva depuração da trama, vi que o protagonista ficava sem antagonista, e por isso a coisa não andava. A solução foi torná-lo antagonista de si mesmo, em duas fases diferentes da vida”. Uma metáfora para mostrar como, no decorrer da vida, por muitas vezes nos tornamos o vilão de nossas próprias histórias. Toda essa trama surrealista ganha ainda mais poesia com a narração do próprio diretor: Guerra faz a voz de um sapo que no pântano viscoso das lembranças abre e fecha a história.

“Quase Memória” é uma experiência para os amantes das artes: a união do cinema com a mais pura poesia e literatura.

 

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