A Revolução das Plantas

Desde pequeno sempre tive uma relação muito particular com o mundo vegetal. Pelo que lembre, sempre “conversei” com as plantas, tanto verbalmente quanto mentalmente. Meses atrás tive um experiência epifânica com as dezenas de plantas que habitam a sala da minha casa. Tive certeza absoluta que elas sabiam e compreendiam o que eu estava falando e, principalmente, sentindo em relação a elas. Foi um diálogo mudo que culminou com todas elas em um farfalhar repentino que me fez chorar. Lembro que escrevi na época sobre essa experiência tão subjetiva, mas ao mesmo tempo tão real, e publiquei o texto nos meus perfis no Facebook e no Instagram. Há séculos vivemos um pensamento “animalcêntrico”, mas esquecemos que os animais constituem uma parcela muito pequena da vida na Terra, menos de 1% do total. Já as plantas chegam a 85%. Há um universo imenso à espera de ser descoberto. Atualmente, conhecemos provavelmente menos de 50% das espécies de plantas existentes no planeta. Temos mais da metade das espécies de plantas por descobrir, e a Amazônia é o centro mais variado e rico dessas espécies no planeta.

Nas últimas semanas, não só no Brasil, mas também no mundo, se evidenciou com mais clareza e fogo o completo desmonte pelo governo Bolsonaro da política ambiental construída no país com muita luta nos últimos 40 anos. Além do escárnio pessoal com que o presidente trata a agenda ambiental, o governo tem assumido uma postura explicitamente anti-ecológica, até mesmo com discursos que negam a ocorrência e a importância do enfrentamento às mudanças climáticas. Começando pela  extinção do Conselho Nacional do Meio Ambiente e do Fundo Nacional sobre Mudança do Clima, instituídos por Lei, e da nomeação de Ricardo Salles para o Ministério, com apoio dos ruralistas e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Os dados da agência espacial brasileira revelam que o índice de desflorestamento disparou e alcançou o patamar mais alto dos últimos 20 anos. Segundo dados recentes do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), as áreas com alerta de desmatamento tiveram um aumento de 90% em junho e de 278% em julho, em comparação com os mesmos meses do ano passado. Na Amazônia, a área desmatada já equivale à extensão do território de países como a Alemanha. A escalada da crise atingiu maiores proporções nas últimas semanas com o anúncio dos governos da Noruega e da Alemanha sobre a paralisação do envio de recursos financeiros para o Fundo Amazônia e com as inéditas vaias recebidas pelo ministro do meio ambiente brasileiro em um encontro internacional do clima, diante da presença de 26 países. Até que no mês passado o gravíssimo problema das queimadas na região amazônica fez com que o dia virasse noite com a chegada de uma enorme nuvem de fumaça no sudeste do país, que chegou a escurecer a tarde da cidade de São Paulo no dia 19 de agosto passado.

Foi só há quatro anos atrás, com o lançamento de uma agenda de combate ao aquecimento global através do Acordo de Paris, que os cientistas identificaram que a concentração de gases do efeito estufa atingiu o maior patamar na história da humanidade, despertando muita gente para a luta ambientalista e deixando sem argumentos os negacionistas climáticos financiados pelos grandes sistemas capitalistas da indústria de combustíveis fósseis. Um dos mais recentes relatórios do painel de especialistas da ONU sobre mudança climática identificou que temos apenas 12 anos para barrar o aquecimento global, demonstrando que a aceleração das mudanças climáticas  está ocorrendo de modo tão intenso que não estão sob risco somente as futuras gerações, mas também a nossa. Se nada for feito em um curto espaço de tempo, presenciaremos a intensificação do derretimento de geleiras, aumento do nível dos oceanos, ocorrência de eventos climáticos extremos, como furacões, tempestades, alagamentos, secas e queimadas, com reflexos na perda de biodiversidade, na produção de alimentos e agravamento de processos migratórios.

Os impactos da mudança climática representam efeitos devastadores e é nesse grave quadro de crise climática global, quando se torna fundamental uma mudança estrutural desse sistema destrutivo que pode nos levar à extinção, onde se inserem os últimos ataques do Governo Bolsonaro sobre a Amazônia, a maior floresta tropical do mundo e bioma fundamental para o equilíbrio climático do planeta. Segundo o sociólogo brasileiro radicado na França Michael Löwy, diretor de pesquisas no Centre National de la Recherche Scientifique, em Paris, a emergência climática “já é, e vai se tornar ainda mais nos próximos anos, a questão política central de nossa época”, Ele é defensor do ecossocialismo, um “modelo de civilização baseado na justiça social, na igualdade, na democracia, na solidariedade e no respeito por nossa Casa Comum”, a Terra.

A afirmação de Löwy reforça ainda mais as pesquisas do biólogo italiano Stefano Mancuso, que teve seu livro “Revolução das Plantas” lançado recentemente no Brasil. Ano passado ele foi o ganhador do XII Prêmio Galileo de escrita literária de divulgação científica. Estudioso da neurobiologia vegetal, ele afirma que o verdadeiro potencial para a solução dos problemas que nos aflige a humanidade está nas plantas. No livro ele fala de suas descobertas e explica por que os vegetais podem inspirar sociedades melhores. Mancuso conta que teve um insight e começou a ver as plantas de uma forma diferente. O que até então para ele eram organismos estáticos, passivos, incapazes do que quer que fosse, passou a ser visto como uma forma de vida capaz de fazer tudo que os animais fazem, mas de um modo diferente. Segundo ele, as plantas respiram, se alimentam, pensam e se comunicam por cada uma de suas partes, permitindo que mesmo que sofram grandes e extensos danos, sobrevivam. “Passei a ver as plantas como organismos sensitivos e cognitivos, o que me levaria a desenvolver o campo da neurobiologia”.

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Mancuso mostrou que as plantas são capazes de aprender e memorizar, o que até então ninguém sabia, mas também que na ponta das suas raízes há sinais elétricos muito similares aos sinais elétricos que correm em nosso cérebro. Sabe-se que todas as espécies se deparam com os mesmos desafios existenciais: obter alimento, defender-se, reproduzir-se. No caso das plantas, elas usam um vocabulário químico que não somos capazes de perceber ou compreender diretamente. “Estamos fazendo um dicionário de todo o vocabulário químico de cada espécie de planta”, explica o italiano, e calcula que uma planta tenha em seu vocabulário químico 3 mil substâncias.  E completa com uma comparação: “um aluno médio tem apenas 700 palavras”. Para ele, a questão ambiental, mais que uma questão política, social, é de sobrevivência. Países que têm florestas primárias têm uma gigantesca vantagem em relação a todos os demais. Para Mancuso, nos próximos anos, ter florestas será como ter uma mina de diamantes.

No livro ele fala, por exemplo, dos movimentos das plantas. As pessoas sempre pensam que elas não são organismos que se movem, o que é um equívoco completo. Elas se mexem, e muito, só que esses movimentos só podem ser percebidos quando são gravados por longos períodos de tempo. Quando os animais se mexem, usam energia interna, já as plantas empregam outra estratégia; elas se movem, mas se valem da energia do ambiente. Outro exemplo é a sua organização. Nos animais toda a organização se concentra em órgãos específicos. Nós humanos vemos com os olhos, ouvimos com os ouvidos, falamos com a boca. Tudo controlado pelo cérebro, que age como um painel central, o que gera uma espécie de hierarquia. Nas plantas não há um órgão específico que faça uma coisa só, o que evita pontos fracos. Todas as suas habilidades são fundidas e espalhadas por todo o seu corpo. E é fundamental que elas não possuam órgãos insubstituíveis. “Uma planta tem um desenho modular, por isso pode perder 90% do corpo sem morrer”, ele diz. “Não existe nada parecido no mundo animal. Isso cria resiliência.”

O fato de estarem enraizadas no solo e serem incapazes de mover-se quando precisam de alguma coisa ou quando as condições tornam-se desfavoráveis se tornaram ferramentas de sobrevivência para elas. O “estilo de vida séssil”, como o denominam os botânicos, requer uma ampla e sutil apreensão do ambiente externo, já que a planta tem de obter tudo aquilo de que precisa e defender-se sem sair do lugar. As plantas também desenvolveram um arsenal sensorial altamente desenvolvido para localizar alimento e identificar ameaças. Mancuso diz que as plantas possuem de quinze a vinte sentidos, entre eles cinco análogos aos que possuímos: olfato e paladar (elas percebem e reagem a substâncias presentes no ar ou em seu corpo); visão (elas reagem de modo diferente a vários comprimentos de onda luminosa e também à sombra); tato (uma trepadeira ou raiz “sabe” quando encontra um objeto sólido), além da audição, com a percepção de sons. Outro experimento, feito no laboratório de Mancuso e ainda não publicado, concluiu que raízes de plantas procuram chegar a um cano enterrado onde existe água correndo mesmo se o exterior do cano estiver seco, o que leva a crer que, de algum modo, as plantas “ouvem” o som da água em movimento.

Mas uma das partes mais instigantes do livro é quando ele discorre sobre o que chama de redes vegetais subterrâneas. Segundo ele, as plantas de uma floresta organizam-se em vastas redes, usando uma rede subterrânea de fungos micorrízicos que conecta suas raízes para trocar informações e até bens. Certos fungos desempenham papel crucial na nutrição mineral de plantas e as micorrizas são associações íntimas, mutuamente benéficas e simbióticas, entre fungos e raízes. O termo foi, de início, proposto pelo botânico alemão Albert Bernard Frank, em 1885, originado do grego, em que “mico” significa fungo e “riza” raízes. É literalmente um rizoma gigantesco, lembrando do conceito filosófico dos franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari. Essa “rede florestal” permite que numerosas árvores em uma floresta transmitam avisos sobre ataques de insetos e também que enviem carbono, nitrogênio e água às árvores necessitadas.

Em uma experiência, ele e sua equipe rastrearam o fluxo de nutrientes e sinais químicos que flui por meio dessa rede subterrânea invisível. No estudo, cada árvore em um lote de 30 metros quadrados estava ligada à rede; as mais antigas funcionavam como eixos, algumas com até 47 conexões. O diagrama da rede florestal originado pelo experiência lembra um mapa de rotas aéreas e o padrão do tráfego de nutrientes provou como “árvores mães” usavam a rede para nutrir brotos à sombra, entre eles seus descendentes [que as árvores aparentemente reconhecem como “parentes”], até que atinjam altura suficiente para alcançar a luz. Há espécies perenes que sustentava a decídua quando tinha açúcares de sobra, e quando a estação chegava ao fim repunha para si. A decídua é a planta que perde as suas folhas em época de seca, em resposta fisiológica para minimizar a transpiração. Nessa verdadeira cooperativa subterrânea não há uma “cabeça” que exerça um comando. Nas plantas, você nunca encontra uma cabeça. Nunca acha uma hierarquia. Tudo está difuso, é tudo uma rede, um rizoma espalhado em múltiplas direções. Nós, humanos e animais, temos um cérebro que controla todos os órgãos. Nas plantas não. Uma analogia seria a internet, que é uma rede horizontal e difusa. E uma planta se organiza exatamente como a internet. Sem um centro de comando, sem hierarquia.

Com sua autonomia energética, ligada a uma arquitetura cooperativa, rizomática, sem centros de comando, e que faz delas seres vivos capazes de resistir a repetidos eventos devastadores e de se adaptar com rapidez a enormes mudanças ambientais, as plantas comprovam sua enorme potência em meio ao reino animal. Vale lembrar que se desaparecêssemos amanhã, as plantas continuariam a existir, mas se as plantas desaparecessem nós, humanos e animais, não. Ao revelar a capacidade das plantas de aprender, memorizar e se comunicar, o cientista fundador da neurobiologia vegetal propõe um novo modelo para pensar o futuro da tecnologia, da ecologia e dos sistemas políticos.

Clifford Slayman, o biólogo de Yale que assinou a carta de 2007 menosprezando a neurobiologia vegetal, admite que, mesmo não achando que as plantas possuam inteligência, ele julga que elas, tanto quanto as abelhas e formigas, são capazes de “comportamento inteligente”. Ele definiu “comportamento inteligente” como “a capacidade de adaptar-se à mudança de circunstâncias”, Slayman reconheceu ainda que “é perfeitamente possível que um comportamento inteligente se desenvolva sem um sistema nervoso, sede, diretor ou cérebro – seja lá qual for o nome que dermos. Em vez de ‘cérebro’, pense ‘rede’. 12 anos depois, Mancuso reforça que as plantas são uma inspiração para podermos construir organizações muito melhores e mais modernas, inclusive social e politicamente. 

Com toda essa singularidade, não há como negar que as plantas têm mesmo uma vida secreta, e que mesmo remanescentes de um passado evolutivo mais simples, pré-humano, para Mancuso elas detêm a chave para um futuro que será organizado em torno de sistemas e tecnologias em rede, descentralizados, modulares, reiterados, redundantes e, mais que tudo, verdes, capazes de nutrir-se de luz. E o solo é um desses sistemas que, juntamente com seus organismos, contribui de modo decisivo para a manutenção da vida e para o equilíbrio da biosfera. Depois de Mancuso não devemos mais considerar as plantas como objetos passivos e aceitar de uma vez por todas que a linha tênue que separava o reino animal do reino vegetal está cada dia que passa se dissipando. No caso do nosso país, literalmente queimando.

 

 

 

 

 

 

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