Uma coroa sem majestade

É literalmente uma calamidade mundial. Tenho pouco mais de 50 anos e em meio século de vida nunca vi algo parecido. Faço parte do grupo de risco porque sou fumante e moro na cidade que é o epicentro no país da pandemia do Covid 19, o Corona vírus, que assola o mundo. Fui trabalhar na segunda e terça passadas. Por São Paulo pairava um silêncio barulhento, não só externo, mas – mais que tudo – interno. O paradoxal é que essa pandemia move esforços coletivos de médicos, enfermeiros, sanitaristas, cientistas, pesquisadores, técnicos e da população no mundo todo, mas em seu cerne está aquilo que pode lhe conter: o  isolamento. Cada um quieto no seu Kant. O isolamento social em meio a um trabalho hercúleo de várias pessoas nos mais diversos países ajuda a conter a propagação do vírus. E cá estamos, os sensatos e os que podem, em uma quarentena, por enquanto espontânea, cada um com seu livre arbítrio. Homens, mulheres, adolescentes, crianças, idosos, moradores de rua que não têm amparo; um isolamento em meio ao coletivo que é a uma cidade.

Aí, em meio a esse turbilhão diário de notícias, lembrei da “peste negra” que dizimou quase um terço da população europeia na Idade Média, e cujo auge se deu no século XIV, entre os anos de 1343 e 1353. Aqui vale comentar duas coisas importantes: o uso da palavra “negra” para designar o mal [o racismo, o preconceito já habitava no planeta há mais de 600 anos] e – claro – a diferença de séculos que separa aquela época da nossa no que diz respeito aos avanços da medicina. A peste foi uma infecção provocada por uma bactéria, e naquela época nem se sonhava na descoberta da Penicilina, que só ocorreu no século passado, na década de 1920. Mas ela não foi a primeira praga que atingiu a Europa. No século VI, ocorreu a “Praga de Justiniano” [Flávio Pedro Sabácio Justiniano Augusto, também conhecido como Justiniano, o Grande, que foi imperador bizantino].  A pandemia causada pela peste bubônica entre os anos de 541 e 544 matou cerca de 20 a 30 milhões de pessoas. Segundo historiadores, a “peste negra” matou entre 75 e 200 milhões de pessoas. Um pouco menos que a população do Brasil.

Uma imagem emblemática do período é a do traje que os médicos que tratavam doentes usavam. A máscara  semelhante a uma cabeça de ave com um enorme bico que causava temor e tremor para quem a visse. Dentro dela era colocada uma composição de ervas – como cânfora e mirra – com o objetivo de combater o processo de contaminação. A roupa se completava com um chapéu, luvas, botas e um casaco de couro de cabra preto, integrado à máscara por um capuz. Tudo em prol para não deixar nenhuma parte do corpo do médico exposta à contaminação, que naquela época acreditava-se acontecer através do ar. Mas por ironia do destino e do tempo, historiadores acreditam que a bactéria causadora da peste tenha vindo da China em meados de 1348, trazida por navios mercantes. Claro que o povo também acreditava que a praga era um castigo dos céus por causa dos pecados cometidos pelos homens, como heresia, blasfêmia e luxúria [a velha culpa cristã impregnada desde sempre], além de que judeus e muçulmanos que foram perseguidos, atacados e queimados em muitas regiões da Europa, acusados de serem os propagadores da praga.

Mas não, o Covid 19 não vai ceifar tantas vidas assim, nem a sombra disso. Ele está ceifando também a economia e a cultura no mundo todo. A indústria cultural já está sofrendo reveses inimagináveis em 2020. Defenestraram tanto a cultura no nosso país, mas no entanto é ela – que mesmo combalida após essa tempestade passar – vai abraçar, abrigar tanta gente que está em quarentena em suas casas. Por exemplo, a China, que foi epicentro inicial da pandemia, ocupa hoje o segundo lugar na lista dos maiores mercados cinematográficos do mundo, atrás só dos Estados Unidos. Especialistas estimavam que 2020 seria finalmente o ano em que o mercado chinês superaria o americano, só que não. Sem perder o trocadilho, a China perdeu a coroa quando o Corona chegou. Um colapso, não só lá, mas em vários mercados cinematográficos do mundo com salas fechadas, produções interrompidas e lançamentos adiados. A crise sanitária não só afetou profundamente o segundo mercado, como também o terceiro, Japão; e o quinto, a Coréia do Sul.

Shows foram adiados no mundo todo, como os de Madonna em Paris. A Primavera Literária Brasileira cancelou a programação deste ano nos Estados Unidos [o evento, que ocorreria em abril, é conhecido por reunir escritores brasileiros e estrangeiros que lecionam ou estudam a língua portuguesa]. Festivais como o Lollapalooza e o Coachella foram prejudicados devido à pandemia; a Broadway e o Carnegie Hall, a Feira do Livro de Londres [um dos maiores eventos literários do mundo] foi adiada, assim como a Feira de Livro de Bogotá. Idem o Bafta, a maior premiação da televisão britânica, e talk shows como “The Tonight Show”, com Jimmy Fallon, e “Late Night”, com Seth Meyers, que tiveram suas produções suspensas. Museus fechados como o Louvre, em Paris; o Museu do Prado e o Reína Sofía, na Espanha; e o MoMA em Nova York, todos com suas atividades suspensas por tempo indeterminado. Tudo adiado, em suspensão. Algo invisível que torna visível uma catástrofe sem proporções.

O tradicional festival de teatro de Curitiba; a maior mostra de teatro da América latina, a MIT; e a cerimônia da 32a edição do Prêmio Shell de Teatro, no Rio de Janeiro, todos afetados. Como imaginar todas as unidades do Sesc fechadas? Instituições importantes da cidade como o Centro Cultural Banco do Brasil, a Japan House, o Instituto Moreira Salles, o Itaú Cultural, o Instituto Tomie Ohtake, o MAC/USP, o Museu de Arte Moderna de São Paulo e o do Rio de Janeiro, o MIS e o CCSP, o Masp, o Museu Imperial. E todos os teatros municipais como o Cacilda Becker, o João Caetano e o ícone, o Theatro Municipal, que teve sua temporada lírica suspensa? Também aqui em São Paulo o Festival É Tudo verdade, a SP-Arte [a Art Basel Hong Kong também] e o São Paulo Fashion Week foram cancelados. Um prejuízo enorme para a capital cultural do país.

Mas ao mesmo tempo tudo isso revela uma nova maneira de habitarmos o planeta. Nos obrigando a pensar coletivamente mesmo dentro de si, sozinho, ensimesmados. Nesse momento de overdose de perdas, de morte, tem que haver uma overdose de vida, de alegria para continuar a acreditar que de algum modo é possível resistir, [sobre]viver e se reerguer diante do cenário sombrio que faz com que sejamos, direta ou indiretamente, protagonistas. Escrevo sobre tudo isso porque não podemos esquecer jamais a única certeza que [email protected] têm no mundo, a sua própria morte. E que é a morte que iguala todos, ricos e pobres.

Albert Camus, autor de “A Peste”

Nessa quarentena eu recomendaria, para quem ainda não leu, a leitura do romance “A Peste”, de Albert Camus, um dos mais importantes autores do século XX e Prêmio Nobel de Literatura. O livro destaca a mudança na vida da cidade de Orã, na Argélia, depois que ela é atingida por uma peste transmitida por ratos. Camus dá uma dimensão política ao livro [um dos mais lidos do pós-guerra], uma vez que a cidade assolada pela epidemia lembra a ocupação nazista na França durante a Segunda Guerra Mundial. Ele ressalta na obra temas como a solidariedade, a solidão e a morte. Camus era um dos autores prediletos de outro nome fundamental da literatura, a Hilda Hilst, que dizia que é justamente nas situações extremas como a morte e o amor que a poesia se faz, mesmo em meio à tensão, que também é feita de silêncio. Ela, comentando sobre uma de suas peças de teatro – “As aves da noite”, escrita em 1968, em plena ditadura – dizia que se seus personagens parecessem demasiadamente poéticos, era porque ela acreditava “que só em situações extremas é que a poesia pode eclodir VIVA, EM VERDADE. Só em situações extremas é que interrogamos esse GRANDE OBSCURO que é Deus, com voracidade, desespero e poesia”.

Não existe comentário.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

WordPress Appliance - Powered by TurnKey Linux